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Mostrando postagens de 2018

[micro ensaio] os ismos e o Comunismo

Com o avanço das questões democráticas, desde os anos 60, sobre a desigualdade entre os gêneros, etnias/raças e, posteriormente, sobre outras diversas identidades e condições que fazem uma parte dos cidadãos serem considerados como "meio" iguais, muitos debates foram se aprofundando sobre a subjetividade e a luta por igualdade dentro do capitalismo.  Digo dentro do capitalismo porque, paralelamente a isso, a URSS e o bloco soviético passavam por uma grave crise decorrente do isolamento econômico do projeto comunista das condições de produção avançada dos países industrializados. Em 1956, explodia o relatório de Kruschev, que denunciava a perseguição de Stalin e colocava em descrédito o modelo comunista de superação do capitalismo. Os comunistas continuaríamos tentando uma superação apesar do atraso econômico de suas bases e da impermeabilidade eficiente dos países capitalistas mais avançados. Nos EUA, por exemplo, os Panteras Negras tinham uma identidade com a Revolução ma...

[micro ensaio] A ditadura democrática e nossa estratégia

Se entendemos o mundo contemporâneo como um mundo livre no sentido liberal, não há porque não usar da liberdade de expressão e de pensamento abertamente. É assim que as instituições democráticas nos incentivam a participar e dar nossa opinião, representar e se fazer representar nas instâncias do Estado moderno, no parlamento, nos conselhos participativos, inclusive em algumas empresas que criam tais conselhos por saber da dificuldade de contar apenas com a força e coerção.  Nossa tradição se confunde com essa liberal quando fomos derrotados em nossa Revolução e retrocedemos até abrir mão de nós mesmos, de nossa filosofia, da tese de que a sociedade burguesa é uma ditadura de classe.  Fizemos isso e de fato, hoje, nos parece inconcebível afirmar que vivemos uma ditadura. Os mais velhos, que viveram o período militar sabem da diferença e lembram do que se trata uma ditadura militar. Assim, a experiência organizativa e política de nossa classe nos forjou para lutar pela demo...

[crônica] O espelho e o ressentimento político em 2018

A  expressão mais contraditória do momento. Poderíamos dizer que Bolsonaro é o grande líder das massas, o substituto do que foi o grande líder Lula com sinal trocado. Mas como Marx disse a respeito de Luis Bonaparte, esse "mito" não passa de um nanico, a farsa que procede à tragédia. Um olhar psicológico permite ver que a grande expressão nacional deste está em correspondência com a sua pequenez de espírito. O ressentimento contido em suas ações desde sua primeira aparição pública inicial nos permite arriscar sua liderança efêmera e de pouca profundidade, seu caráter de instrumento em oposição ao de sujeito histórico. Não estamos falando ainda de sua aparição como político na democracia, satisfeito com sua posição folclórica e sua ineficiência parlamentar - tendo aprovado apenas 2 projetos em 27 anos de mandato como deputado federal ( Estadão, 23/7/2017 ). Mas seus consecutivos mandatos de deputado federal não são esse começo. O atentado planejado por Bolsonaro, a "...

[crítica] A aparências enganam - uma interpretação

A música interpretada por Elis Regina pode ser interpretada como uma canção de amor, como fez um jornalista ao apresentar o lançamento desta na televisão. Contudo, apenas para quase todos e em algum momento. Num contexto de conflito social iminente, extrapola a esfera privada do casal e ganha uma conotação universal de conflito de classes.  Poderíamos estar falando do amor cego dos enamorados que é uma reprodução privada dos amores políticos, como os namoros e casamentos são uma reprodução dos regimes políticos e dos períodos de concertação de classes. A fogueira das paixões nada mais é que o encontro destas na forma de um conflito aberto onde a combustão os persegue. Compartilham o pão, o vinho e a recordação da possível convivência. Mas as aparências enganam não apenas os casais mas a sociedade civil que acredita poder viver numa sociedade capitalista em paz ou quando luta entre si apaixonada e cegamente. E, numa nova estação, não há mais nada que se fazer, não há mais tem...

[micro ensaio] Do idealismo marxista e do apelo produtivo

A estratégia socialista é determinante, além do que é produtivo ou não. Até agora, o mais avançado do debate democrático e popular definiu o centro da classe como o setor produtivo e a organização dos trabalhadores da indústria indiscriminadamente como centro do polo organizativo revolucionário. Porém, a heterogeneidade da classe trabalhadora, do sujeito revolucionário, também existe dentro do chamado setor produtivo. Ou seja, a questão determinante não é apenas a produção de valor uma vez que esse critério é determinado pelo interesse da classe dominante. O problema para nós, comunistas, é o papel de cada campo na luta de classes. O quanto cada setor ou campo pode ser central, estrategicamente, para a organização de uma produção numa nova lógica. Da produção voltada para a necessidade humana e não para a acumulação de riqueza. Isso envolve o conhecimento dos técnicos da produção e a possibilidade de voltar um tipo de produção e, no limite, de uma máquina, para a produção de uma nova ...

[crítica] O outro lado do paraíso 

O outro lado do paraíso  Aquilo que poderia ser o inferno, será mesmo o próprio paraíso? Vingança, duas mulheres separadas de suas famílias. Ambas do Tocantins, é a vez do estado mais novo do Brasil, criado na ditadura. Uma,  de origem simples e casada com um diplomata, desprezada pelo sogro aristocrata por sua origem de classe. Outra, camponesa, herdeira de uma terra com esmeraldas, que se apaixonou por um jovem burguês de Palmas, foi estuprada no dia do casamento e agredida fisicamente pelo mesmo desde então. Esta última é a protagonista do inferno (ou seria o lado obscuro do paraíso?). A sogra ambiciona sua jazida de esmeralda e a cunhada seu filho recém-nascido, motivo que as levaram a criar um meio de internar a personagem Clara num hospício por 10 anos. Ela é a vingança e a sede pela apropriação da cria (criação/riqueza produzida) da classe operária contra a burguesia e o patriarcado. Ela quer se vingar da sogra, e todos que a ajudaram a persegui-la. Mais produção da ...

[mirco ensaio] Ex-nobe

Os costumes da nobreza, a cordialidade, a côrte, a polidez e elegância são traços de uma classe social que busca justificar sua superioridade hereditária no comportamento, na sua essência, no sentimento.  A imitação destas características pela nova classe dominante são, na verdade, uma reprodução superficial da elegância, da superioridade de espírito e cultural. A burguesia é uma classe que busca se elevar socialmente mas a relação social que a envolve é mediada pelo interesse material e pela racionalidade, essencialmente econômica, diminuindo a importância das questões espirituais, filosóficas e culturais. Essas questões somente são importantes se tiverem uma utilidade, se estiverem relacionadas a um ganho. Esse ganho pode ser econômico, como é essencialmente, mas também pode ser de poder político, status e prestígio. O utilitarismo do período burguês reduziu a relação com Deus e a magia à ciência, o que foi elogiado por Marx. Mas também reduziu a relação humana ao comércio e...

[crônica] A conjuntura internacional a meados de 2018

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A notícia de que Donald Trump e Emmanuel Macron tiveram o aperto de mão interminável é antiga, de julho do ano passado. Mas se repete quando se reencontram este ano quando o francês deixa marcas nas mãos de Trump (O globo, 09/06/2018). Poderia ser uma paquera mas as coisas não acontecem somente entre os dois. A tensão ocorre no momento em que ocorre uma reunião do G7 onde o chefe americano exige o fim das barreiras alfandegárias enquanto taxa o aço e o alumínio do Canadá, chamando o presidente do país, Justin Tudreal, de "fraco" e "desonesto" (Valor, 11/06/2018). Uma foto publicada pela chanceler alemã viraliza na internet. Nela, Ângela Merkel aparece inclinada para frente com as mãos na mesa e cercada dos outros líderes do grupo, todos em pé, e encarando Trump, que está sentado de braços cruzados. Na reunião o presidente americano fala de acabar com as desvantagens do comércio internacional para os interesses dos EUA.  Outro fato que marca o acontecimento intern...

[crônica] A cor do Brasil

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Recentemente, diante da reação de um setor conservador da sociedade brasileira, muitos debates foram ganhando força diante do desespero daqueles que entendem que o PT é um partido comunista. Técnicamente esse partido é social democrata, grupo que sempre esteve associado às cores  branca, amarela ou laranja. Se formos na origem do nome Brasil vermos que vem de brasa. Ou melhor, de pau brasil que, pela cor avermelhada, vem de brasa. Diante disso, talvez eles queiram mudar o nome do país. Ou então, constrangidos mudem para a palavra indígena ibirapitanga. Mas isso não muda o significado, madeira vermelha. Mas diante das cores atuais também cabe uma reflexão. Comentando com amigos, uma camarada lembra que a cor verde vem da vegetação, das florestas, e a cor amarela do ouro. Poderíamos então lembrar que o "verde" do país permanece desaparecendo pela busca do "amarelo". E que diante do país cada vez mais amarelo ouro, cada vez mais rico, mais desmatado, não somente os ...

[micro ensaio] Sobre a fusão da ciência e da arte

Inspirado no texto de Adorno sobre o ensaio ("Ensaio como forma"), escrevo este texto que penso ser um ensaio, sem a pretensão de alcançar aquilo que um dia será uma nova consciência. Faço isso porque o texto de Adorno, que também me parece um ensaio e uma defesa do estilo ensaístico, indica questões que há algum tempo venho refletindo sobre a ciência e a arte, a consciência e a existência, no limite. Mas sobre a primeira oposição que prometo falar no título e luto para não abandonar, parece necessária ser superada. E o ensaio parece ser, como defende Adorno, uma forma de apresentação que não é nem científica nem artística mas ao mesmo tempo é as duas coisas. Assim, o pensamento não estaria preso à regras pré-estabelecidas e formalidades que matam sua certidão no nascimento, nem à estética sem filiação da arte, ao mesmo tempo que se pretende "supra-científico" e artístico na exposição, cativante e pretensiosamente simples mas profundo e assertivo, herege e provocat...

[mini ensaio] Da ortodoxia ao fundamentalismo

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Irei começar este texto afirmando que considero, assim como fez Sartre, provavelmente o maior filósofo do século XX, que o marxismo é o pensamento mundial mais desenvolvido da humanidade para então criticar os equívocos de meus camaradas marxistas. "Com frequência, tenho observado o seguinte: um argumento "antimarxista" não passa de um rejuvenescimento aparente de uma ideia pré-marxista. Uma pretensa "superação do marxismo limitar-se-á, na pior das hipóteses, a um retorno ao pré-marxismo e, na melhor, à descoberta de um pensamento já contido na filosofia que se quer superar." (Sartre em "Questão de método"). Isso é central e não uma introdução autoafirmativa, já que existe uma diferença entre o marxismo histórico e o marxismo contemporâneo, assim como entre a ortodoxia marxista e o fundamentalismo marxista. Se considero este como a filosofia que melhor compreendeu os antecessores e o mundo s partir deles, orto (reto) doxa (fé) seria percorrer o c...

[mini ensaio] Gêneros humanos

Existe ideologia de gênero, ou seja, conjuntos de ideias sobre ser homem e ser mulher. Uma delas é o machismo, que possui um espectro que vai do mais conservador, como o fascismo, ao mais liberal, aquele preconceito sutil e mais ou menos disfarçado com a condição feminina. Alguns poderiam dizer "o que você sabe sobre isso?!". Como eu não sinto na pele essa opressão, não é meu "lugar de fala". E de fato existe uma tendência de homens entenderem formal e superficialmente sobre isso, sendo levianos ou insensíveis à diversidade de situações e nuances do machismo. Por coerência, teimosia ou para "manter meus privilégios", insisto em discutir isso seriamente. Apesar das demonstrações e porradas que sempre tendem a me colocar no lugar-comum dos homens: ou reajo ou me calo. Alguns dizem ser besteira e fazem pouco caso. Outros dão razão e se isentam de colocar sua percepção, as nuances, de tentar entender mais profundamente. Dão razão às mulheres mesmo não concord...

[mini ensaio] Qual o papel do indivíduo na história?

Diferentemente dos liberais, que não conseguem ver uma continuidade da história, uma sociedade superior ao capitalismo, quero escrever sobre o indivíduo reconhecendo este como uma realidade mas colocando os limites da racionalidade individual e egoísta. Não podemos negar a existência do indivíduo e cada vez menos podemos fazê-lo. Isso porque ele se torna cada vez mais real, ou seja, cada vez mais os indivíduos são capazes de autonomia, de seguir seus rumos para além de determinações da família ou qualquer outra comunidade. Se pensarmos na questão de classe, nos deparamos com uma generalização do indivíduo e sua racionalidade egoísta presente em diferentes classes. É claro que isso faz com que a classe trabalhadora não exista enquanto coletivo mas, apesar disso, a pequena burguesia (comerciantes, técnicos e burocracia de medio e alto escalões, políticos, etc.) reafirma o indivíduo como o máximo de existência humana, reforçando a força do ideal liberal. Os próprios trabalhadores buscam ...