[crítica] A aparências enganam - uma interpretação
A música interpretada por Elis Regina pode ser interpretada como uma canção de amor, como fez um jornalista ao apresentar o lançamento desta na televisão. Contudo, apenas para quase todos e em algum momento. Num contexto de conflito social iminente, extrapola a esfera privada do casal e ganha uma conotação universal de conflito de classes. Poderíamos estar falando do amor cego dos enamorados que é uma reprodução privada dos amores políticos, como os namoros e casamentos são uma reprodução dos regimes políticos e dos períodos de concertação de classes. A fogueira das paixões nada mais é que o encontro destas na forma de um conflito aberto onde a combustão os persegue. Compartilham o pão, o vinho e a recordação da possível convivência. Mas as aparências enganam não apenas os casais mas a sociedade civil que acredita poder viver numa sociedade capitalista em paz ou quando luta entre si apaixonada e cegamente. E, numa nova estação, não há mais nada que se fazer, não há mais tem...