[crítica] A aparências enganam - uma interpretação

A música interpretada por Elis Regina pode ser interpretada como uma canção de amor, como fez um jornalista ao apresentar o lançamento desta na televisão. Contudo, apenas para quase todos e em algum momento. Num contexto de conflito social iminente, extrapola a esfera privada do casal e ganha uma conotação universal de conflito de classes. 
Poderíamos estar falando do amor cego dos enamorados que é uma reprodução privada dos amores políticos, como os namoros e casamentos são uma reprodução dos regimes políticos e dos períodos de concertação de classes. A fogueira das paixões nada mais é que o encontro destas na forma de um conflito aberto onde a combustão os persegue. Compartilham o pão, o vinho e a recordação da possível convivência. Mas as aparências enganam não apenas os casais mas a sociedade civil que acredita poder viver numa sociedade capitalista em paz ou quando luta entre si apaixonada e cegamente.
E, numa nova estação, não há mais nada que se fazer, não há mais tempo de se esquentar, corpos e mentes estão separadas por um abismo, a sociedade está dividida. E sofre com isso, medo, insegurança, solidão, paranoia e a clareza que não vale a pena ter ilusões. Mas as aparências enganam também na geleira das paixões. Enganam não apenas pra quem não acredita num novo amor mas também para quem acha que nenhuma filosofia (ou ideologia) pode apontar melhoras. 
Mas o outono obriga a sociedade civil a cortar lenha, trabalhar para se aquecer em outro inverno. Tempos de austeridade e perda de direitos, a urgência exige muito trabalho para garantir o futuro. O inverno é a separação dos que gelam como quem conserva a sociedade e os que inflamam, como quem quer destruir a sociedade. As aparências enganam a ambos e a memória de um verão aquecido aparece numa reticente primavera. A reticência talvez se deva a nova temporada de ilusões que esconde a eterna impossibilidade de união das classes e a primavera dos povos tem essa ambivalência. Aponta para um futuro incerto e produz uma certo futuro perecível.


A letra:

"As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague
se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno e o pão, o vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver
As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele
Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor
As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali
Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera
No insistente perfume de alguma coisa chamada amor"

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