[micro ensaio] Inventário em movimento

"Antes a frase ia além do conteúdo, agora conteúdo vai além da frase" (Marx, Dezoito brumário de Luis Bonaparte)
Dando continuidade a elaboração de nossos espólios, da parte que nos cabe nas vitórias e derrotas, podemos dizer que boa parte das questões que temos necessidade de responder são colocadas ainda durante a Guerra Fria, no auge da disputa entre as experiências socialistas e o capitalismo. Na mesma década que a União Soviética expunha suas contradições com o autoritarismo e o personalismo do período stalinista, os EUA enfrentavam protestos do movimento negro e de mulheres, LGBT, e etc. O declínio do socialismo aproxima naturalmente as lutas e contradições da cultura e da ideologia liberal. Por outro lado, as questões econômicas são marginalizadas. Com elas, a possibilidade de uma sociedade superior, em que a igualdade e a liberdade ganham um novo patamar, também entram em declínio. A social democracia oferece um caminho alternativo e se consolida como horizonte razoável de luta por justiça social. Prevaleceu o multiculturslismo sobre o materialismo. Nele, todos deveriam ter um lugar, a fraseologia do politicamente correto se impõe sobre a necessidade, impedindo a consciência sobre a tendência histórica.  O moralismo de esquerda dominou o desenvolvimento da ciência e da praxis do sujeito e ficamos novamente a deriva das mudanças conjunturais, incapazes de sair dos ciclos de repetição histórica. A esquerda se torna refém de sua derrota e do seu conteúdo transformado também em fraseologia. A tentativa de resgatar a coerência e unidade que um dia fez do marxismo a arma de combate filosófica mais poderosa até então somente nos leva hoje a uma espécie de nova religião, misturada umbilicalmente com a fraseologia e o moralismo social democrata ou com o mecanicismo e idealismo stalinista. 
Justamente sobre essa contradição entramos pela porta dos fundos do culturalismo, formando uma espécie de identitarismo operário, reféns da idealização do sujeito histórico, presos a forma conceitual de nossa teoria e apartados do método capaz de identificar esse sujeito em seu movimento subterrâneo de toupeira. A classe busca sua redenção e a esquerda busca a redenção da redenção. Incapazes de reconhecer a constrangedora concretude da classe trabalhadora aburguesada e da classe trabalhadora que não trabalha, ou seja, das margens da classe, do exército industrial de reserva tantas vezes dirigido pela pequena burguesia e pelo lumpemproletariado e tantas vezes explosivo, ficamos com o purismo, com o moralismo. Petrificados pela medusa da história, ficamos presos na consciência de nosso último suspiro. Defendendo a centralidade do sujeito que produz as condições de existência da sociedade, deixamos de lado a centralidade da treta dessa classe, que geralmente ocorre mais intensamente onde o elo da corrente é mais fraco, onde o controle ideológico é menor.
Podemos esperar o sujeito histórico esfregar na nossa cara as saídas da lama, se ele já não nos esfrega essa verdade atualmente, ou retomar as rédeas de nosso método, a filosofia feita ação concreta no mundo, viva e capaz de nos tirar do imobilismo ou do tarefismo, se formos capazes de abandonar os purismos e o moralismo, se pudermos encarar a contradição novamente, assumir o conflito que ainda rasga nossa própria existência e nossas organizações. Enterrar nossos mortos é condição para fazer o devido inventário, que é o renascer de nossa organização, para  permitir que a toupeira da história volte a superfície e traga as novidades tanto tempo ocultas para aqueles que respiram a atmosfera poluída da sociedade burguesa.

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