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Mostrando postagens de 2020

Trecho de "A Náusea" - Sartre

 As leituras do Autodidata sempre me desconcertam.  De repente voltam a minha memória os nomes dos últimos autores cujas obras consultou: Lambert, Langlois, Larbalétrier, Lastex, Lavergne. É uma iluminação; entendi o método do autodidata: instrui-se por ordem alfabética.  Contempol-o como uma espécie de admiração. Que vontade tem que ter para realizar lentamente, obstinadamente, um plano de envergadura tão vasta. Um dia, faz sete anos, "ele me disse que estudava havia sete anos", entrou com grande pompa nesta sala. Percorreu com o olhar os inúmeros livros que cobrem as paredes e deve ter dito, mais ou menos como Rastignac: "Agora nós, Ciência Humana." Depois foi pegar o primeiro livro, da primeira prateleira da extrema direita; Abriu-o na primeira página, com um sentimento de respeito e terror, acompanhado de uma decisão inquebrantável. Atualmente está na letra L. K depois do J, L depois de K. Passou brutalmente do estudo dos coleópteros para o da teoria dos quanta,...

Diário das palavras 2

chuveiro de tanto que ela rolou, acabou ficando encanada. encanou que vinha na pressão pra aliviar os corpos, sedentos, sujos e sofridos. saiu numa torrente violenta sob o ruído do alto ou num chuvisco engasgado, como choro reprimido, meio entupido. molhou nossa cara enrugada de tantas tensões sem resposta, cansada da labuta e da conversa mole. é preciso tomar o seu curso, lavar o veio da terra, tal qual cachoeira, tempestade, tormenta. daquela que rasga a carne, levanta casa, vira tudo do avesso. fazendo jus aquele ditado da pedra, porque fura. pode ser pingando porque a vida é curta pra presenciar todo seu ciclo. mas certamente no encanamento não vai ficar, não cabe ali.

o passado ameaça

o passado e nossa origem, espacial, temporal e de classe, do povo, de gênero nos ameaçam. nós estamos sempre com ele no encalço, alguns correm pra sombra não pegar mas ela nunca se separa. outro não se importam com ela. mas no sabemos de quantos joãos e marias viveram uma vida de trabalho, para além do suportável, preso à roda que lhe tortura, sem ao menos entoar um gemido de revolta e insatisfação para superar a sombra da miséria. não que essa sombra não ameace realmente a todos de uma classe que trabalha. sabemos quantos não hesitaram quando apareceu a oportunidade de viver e não foram capazes pelo medo. ou aqueles que, lutando contra o medo, encontraram o medo do medo e despertaram numa luta consigo mesmo, fugindo da própria sombra no mesmo instante que se posiciona no ângulo em que esta aumenta demasiadamente. ela se torna invencível e nós viramos crianças perdidas e assustadas, incapazes  de reconhecer a ligação do ser com sua representação imaginária e assombrosa.  ...

Diáro das palavras 1

 Passageiro relacionado àquele que está de passagem. ou que tem uma passagem para qualquer lugar. não se sabe se chegará mas está no passo. no lugar de passagem onde tantos transitam, por vezes aleatoriamente, ainda que pensem haver um destino. ou estão tão presos à direção que não se apercebem ao passageiro, que, relacionado, confunde-se com o próprio definitivo e permanente. tantos passageiros fazem parte do movimento tectônico das placas e, ainda que tão presos a suas próprias engrenagens. a coisa toda não anda, o movimento acontece, até que aparentemente rasga numa sub elevação ou padece num perecível presente durável e troiano.  

Benjamin - Alarme de incêndio

A ideia que se tem da luta de classes pode ser enganadora. Não se trata de uma prova de força em que se tenha de decidir a questão de saber quem ganha e quem perde ; não se trata de um combate depois do qual o vencedor ficará bem, e o vencido, mal. Pois, quer a burguesia ganhe, quer ela perca essa luta, ela está condenada a sucumbir às contradições internas que se tornarão fatais ao longo da sua evolução. A questão é apenas a de saber se ela se afundará por si própria ou pela ação do proletariado. A manutenção ou o fim de uma evolução cultural com três mil anos serão decididos pela resposta a essa pergunta. A história nada sabe sobre a imperfeita infinitude simbolizada nos dois gladiadores eternamente em luta. O verdadeiro político só faz projetos a prazo. E se a eliminação da burguesia não for concretizada até um momento rapidamente calculável da evolução econômica e técnica (a inflação e a guerra de gás parecem assinalá-lo), então tudo está perdido. É preciso cortar o rastilho antes ...

[aforisma] a organização revolucionária na beira do abismo

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"antes a frase ia além do conteúdo, agora o conteúdo vi além da frase" Marx As reflexões sobre organização dos revolucionários esteve muito associada aos sucessos da Revolução de Outubro de 1917 mas nem só de sucesso se vive uma empreitada. Como a tarefa que temos é internacional, intergalática se quiser, vamos quero lembrar de algunas cositas que quedaron atrás. Nosso querido Marx, que não é o gênio da bússola mas sabia onde pisava, andou conversando e fazendo parcerias nas terras que depois seriam a ponta de lança da Revolução de Lenin. Em suas conversas com os populistas russos, depois de teimar consigo mesmo, admite que existe uma possibilidade revolucionária que não era prevista em sua cachola. Essa possibilidade não é levada a sério pelos revolucionários, com exceção de alguns poucos, e tem a ver com saltar etapas e aproveitar a tradição comunitária ancestral na construção da nova sociedade. Quem conhece Marx sabe que ele jamais abriria mão daquilo que identificou como ...

[aforisma] A humanização do vírus ou a desumanização do mundo

Já se tornou senso-comum que o coronavírus surgiu no mercado vivo de Wuhan, na China. Há quem diga que foi criado em laboratório, na China ou nos EUA. Neste caso a explicação vai pra uma teoria da conspiração, uma espécie de guerra biológica secreta, em que a ideologia teria um papel central. Tendo visto a importância dos robôs na disseminação de fakenews e como isso tem sido importante na política atual não me surpreenderia que fosse verdade. Entretanto, uma outra versão me parece muito rica e interessante. Alguns pesquisadores afirmam que o grau de concentração populacional de humanos e animais chegou a tal ponto que o intercâmbio biológico favorece cada vez mais o salto evolutivo dos vírus. Isso tem a ver com o capitalismo, a (agro)indústria e com o avanço das cidades sobre o campo e as florestas. Esta explicação é muito interessante porque é a mesma razão pela qual alguns seres humanos se tornaram um vírus parasita. Nas comunidades gentílicas da antiguidade ou em parte das sociedad...

[crônica] Diário do coronga: ele está entre nós... e não tem pressa!

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Assumimos a dianteira do número de mortos. O recalcado da nação, fracassado de carreira e chefe da nação conseguiu atrair as atenções do mundo, novamente. Somos o país que mais morre pessoas por covid-19 por dia e essa semana ultrapassaremos a Espanha, a França e, possivelmente, a Itália em número de mortos pela doença.  Pois bem, não me parece que o mito de nome messias tem atraído a glória e a salvação do senhor. Estamos na verdade, ardendo no fogo do inferno. O falso profeta nos governa e nós estamos sofrendo as consequências dos delírios coletivos de seus seguidores. Mas deixando o palavreado teológico de lado e voltando à matemática: é bom lembrar que somos o sexto país em número de mortos e que, desses, somos o que tem menos testes. Pior, desse grupo seleto de pandêmicos, o quinto lugar em número de testes é a França, que têm cinco vezes mais testes proporcionalmente à população (21.217 para cada milhão de pessoas, enquanto nós temos 4.104 para cada milhão). Os EUA têm 12 vez...

[aforisma] A corrente e seus elos

Admito minha insuficiência teórica e ainda assim não me deixo render. Me explico: não sei exatamente onde está a teoria do elo fraco da corrente, em Lenin, mas sei que se relaciona com a condição periférica e sua potência explosiva. O camarada russo parecia ponderar a tese de Marx de que as condições materiais são determinantes para o surgimento de uma nova sociedade. Ainda que Lenin tenha feito duras críticas aos populistas russos (Narodniks), afirmando que as relações sociais comuniais tradicionais não poderiam contribuir como base da transformação revolucionária porque estavam em vias de extinção. Vera Zasulich teve troca de correspondências com Marx sobre tal tema. Este considerou as teses populistas e afirmou que existia a possibilidade de a comuna rural ser a base da transição revolucionária, por possuir um modo de vida sem classes, saltando a etapa do desenvolvimento capitalista. A condição para tal, segundo Marx, seria a articulação da Revolução na Rússia se articular com a re...

Homenagem a Aldir Blanc e Flávio Migliaccio

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Aos nossos mestres! Me lembro de uma paródia de "De frente pro crime" de Aldir Blanc que fizemos em 2005, quando o governo Lula ameaçava as Universidades Federais com privatizações. Nós cantávamos: "tá lá o corpo da educação". Era preciso lutar contra o que se transformava nosso projeto político mas nunca imaginaríamos que as consequências seriam muito mais desastrosas, uma gigante vermelha que ao implodir dava lugar a um buraco negro e ao fascismo. Não foi como a estrela que  toma conta de tudo antes de apagar e virar uma anã branca. A morte de Aldir Blanc por Covid-19 e de Flávio Migliaccio por suicídio é mais um capítulo dessa história. Eu descobri hoje, relembrando meu primeiro ano de faculdade, o quão importante foi Aldir Blanc pra mim, essa música e tantas outras que me influenciaram tanto quanto os supostos doutrinadores que passaram pelo meu caminho. A morte de Migliaccio parecia apenas "mais uma", não o conhecia pelo nome. Quando vi sua foto, c...

[trechos] A epidemia e o destino nos Capitães de Areia

Ocuparam a mesa do canto. O Gato puxou o baralho. Mas nem Pedro Bala, nem João Grande, nem o Professor, tampouco Boa-Vida se interessaram. Esperavam o Querido-de-Deus na "Porta do Mar". As mesas estavam cheias. Muito tempo a "Porta do Mar" estava sem fregueses. A varíola não deixava. Agora que ela tinha ido embora, os homens comentavam as mortes. Alguém falou no lazareto*. "É uma desgraça ser pobre", disse um marítimo.  Num mesa pediram cachaça. Houve um movimento de copos no balcão. Um velho então disse:  - Ninguém pode mudar o destino. É coisa feita lá em cima - apontava o céu.  Mas João de Adão falou da outra mesa: - Um dia a gente muda o destino dos pobres... Pedro Bala levantou a cabeça, Professor ouviu sorridente. Mas João Grande e Boa-Vida pareciam apoiar as palavras do velho, que repetiu: - Ninguém pode mudar não. Está escrito á em cima... - Um dia a gente muda... - disse Pedro Bala, e todos olharam para o menino.  - Que é que tu s...

[crônica] Diário do coronga: teremos imunidade?

Passado alguns dias, depois de convulsionarmos diate da ofensiva que nos queria colocar na máquina em pleno processo de isolamento. Aquele vai não vai parecido ao prende, solta, prende solta. A indecisão da classe dominante frente às difíceis decisões que se aproximam, nos brindaram incríveis cenas tragicômicas. Isso se nos considerarmos espectadores desse horrendo espetáculo mundial. Claro que, podemos nos considerar ativos, ainda que a nossa capacidade de sermos sujeitos neste momento esteja bastante difusa e debilitada. Mas ainda podemos convulsionar de raiva, isolados fisicamente, mais que socialmente, diante da barbárie que se agiganta a nossos olhos.  Agora, não. Entramos na nova fase, a quarentena se faz realidade ainda que precária. Neste novo momento, a pressão não é apenas par voltarmos ao trabalho mas também para trabalharmos em isolamento, fazendo de nossas casas parte da linha de produção. E isso abre infinitas possibilidades de acumulação. E de novos sofrimentos....

[crônica] Sobre parasitas, vida e valor

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Uma das coisas mais curiosas dos últimos dias é o reconhecimento público e histérico de que a economia precisa de trabalhadores. Parece uma coisa óbvia, contudo, cotidianamente, sem uma pandemia para que as pessoas falem abertamente, o teatro do mundo oculta a importância daquele que executa as tarefas atrás daquele que dirige o processo de trabalho. Assim, o trabalhador que obedece aceita baixos salários, humilhações, ameaças de desemprego, assédio moral e etc. Soma-se a isso a visão de quem obedece como inferior, quase um animal, ensinando às crianças na escola que elas devem estudar pra "ser alguém na vida". Pois é, isso ficou um pouco mais complicado justamente no momento em que a humanidade se vê bagunçada por uma pandemia.  O risco de transmissão para toda a sociedade envolve os setores médios e até da classe dominante, que só pode diminuir o perigo evitando o contato, as aglomerações, o transporte e o trabalho. E então quem aparece? O trabalhador, que não é ninguém,...

[crônica] Teste de vacina - lote x

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Estamos diante de uma grave crise e a ansiedade nos consome. Penso que este estado de agitação é como um instinto corporal para que estejamos preparados para uma reação imediata, para nos defender de alguma ameaça ou porque sabemos que precisamos agir de alguma maneira. A mudança radical nos nossos hábitos, a interrupção do trabalho repentinamente. Justamente esta atividade que não pode nunca parar, mesmo diante de tantos motivos para parar e de tantas tentativas de greves para melhoria da vida. Não, hoje o trabalho pára por necessidade....do Capital. Se ele não parar, a crise vai ser maior e os riscos de explosão social serão incontroláveis. Agora já não são propriamente controláveis, uma vez que a situação daqueles que são "autônomos" é de profunda dependência dos consumidores e os efeitos econômicos serão catastróficos. Os comerciantes, como os "autônomos" ou "empreendedores" sofrem a agonia de ver os prejuízos aumentarem. E não existe acordo social qu...

[crônica] O decalque da guerra ou vou falar de "coronga" de novo

Como que fazendo um raio-x, analisando a profundidade do espírito dos povos vemos os nomes pelos quais estes chamam o cenário natural a seu redor. A língua guarda segredos que as especialidades científicas demoram muito a descobrir. Por isso hoje resolvi falar do menino Wesley, de 14 anos, que trocou o nome do "coronga" vírus propositalmente, creio eu, porque trocar as palavras é um meio de ele fingir que não sabe do que tá falando. Como quem ta acostumado a ouvir: você sabe com quem você ta falando? É o decalque da guerra. Passando uma vista no que o oráculo moderno tem a dizer, encontro um artigo de José de Souza Martins, de 2003, que me remete à língua brasileira proibida, o Nheengatu ou língua geral.  Se pensar bem, o que aparenta ser um problema de dicção é toda uma linguagem que se recusa a aceitar a norma padrão, ainda que também seja expulsa de uma norma que não pára de se modificar deixando sempre pra trás quem não deve ser proprietário da própria língua. É o deca...

crônica] A metonímia pandemônica do capitalismo

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Como todos devem estar falando nas pausas do café, nos encontros casuais, nas aulas e reuniões de trabalho. Instalou-se uma pandemia na sociedade mundial. E a indústria cultural passa à margem das questões centrais, obviamente, já que seu papel é justamente distrair a massa. E a massa desconfia da indústria cultural, recorrendo a seus infinitos tentáculos para se informar melhor. Bem vindos! Não há saída, todas as informações parecem duvidosas, o medo e a incerteza se alastram como vírus. Mas o medo não é bom para os negócios! Porque alguém teria interesse no pânico geral. Afinal, o vírus é ou não perigoso? Só mata os velhinhos... Mas distrai a todas as idades.  Recomendo as análises de Jason Borba e José de Souza Martins (links abaixo). A pequena rua de Nova Iorque representa alguma coisa nisso. Ontem, Donald Trump falou que não é uma crise financeira e falou do vírus como mais uma vez em que os americanos e a humanidade vão lutar para sobreviver. Afinal, ele está respondendo a...

[aforisma] O liberalismo e seus tentáculos

Essa doutrina filosófica, corrente política, própria da burguesia desde sua revolução, já convive com as ideias socialistas desde a grande Revolução Francesa, quando a pequena burguesia promove a distribuição de riqueza. Quando os operários se tornam mais numerosos e buscam se organizar em partidos próprios, o liberalismo já se infiltra em suas fileiras para que os operários defendam a liberdade...da burguesia. Todos livres e iguais, palavras de ordem da burguesia contra a nobreza, agora na boca dos operários. Desde o final do século XIX vivemos a sombra do reformismo pequeno burguês na consciência do trabalhador. E essa sombra, ofuscada pela Revolução Russa que mostrou que outro caminho é possível, dividindo o mundo e mostrando toda a capacidade dos trabalhadores e seu projeto revolucionário, ficou enfraquecida. Com o fim do Estado Soviético, muitos acreditaram que o capitalismo fosse absoluto, o liberalismo novamente toma as fileiras dos trabalhadores. O Partido dos Trabalhadores, n...

[micro ensaio] A justeza da política de hoje

Mais de uma vez recentemente cheguei a uma conclusão desconcertante para um comunista. A clareza de que não temos andado em terra firme me faz repensar tudo, buscar os fundamentos por debaixo do pântano em que nos encontramos. A luta contra a ditadura militar nos obrigou a fazer esse percurso, nos associar com setores mais moderados, democráticos e na luta por direitos. Nossos camaradas que aderiram à luta armada foram brutalmente derrotados e a possibilidade de uma Revolução ficou cada vez mais distante, sem falar na queda do Muro de Berlim, que reforçou toda essa tendência.  Contudo, a euforia com a redemocratização é como uma embriaguez que nos perturbou os sentidos. A consciência só vez após a festa, o foi mesmo que fizemos? Em grande medida confiamos que o acúmulo de forças poderia nos levar a uma radicalização das mudanças, às tão sonhadas conquistas de um mundo igualitário, fraterno, onde todos possamos desfrutar da riqueza, sem privilégios, preconceitos e TANTO trabalho....