[micro ensaio] A justeza da política de hoje

Mais de uma vez recentemente cheguei a uma conclusão desconcertante para um comunista. A clareza de que não temos andado em terra firme me faz repensar tudo, buscar os fundamentos por debaixo do pântano em que nos encontramos. A luta contra a ditadura militar nos obrigou a fazer esse percurso, nos associar com setores mais moderados, democráticos e na luta por direitos. Nossos camaradas que aderiram à luta armada foram brutalmente derrotados e a possibilidade de uma Revolução ficou cada vez mais distante, sem falar na queda do Muro de Berlim, que reforçou toda essa tendência. 
Contudo, a euforia com a redemocratização é como uma embriaguez que nos perturbou os sentidos. A consciência só vez após a festa, o foi mesmo que fizemos? Em grande medida confiamos que o acúmulo de forças poderia nos levar a uma radicalização das mudanças, às tão sonhadas conquistas de um mundo igualitário, fraterno, onde todos possamos desfrutar da riqueza, sem privilégios, preconceitos e TANTO trabalho. Enfim, uma vida digna das conquistas que a humanidade alcançou!
A questão que chamo de "justeza da política de hoje" é a dura adaptação daqueles que possuem uma riqueza teórica superior ao liberalismo mas que se contentou com o rebaixamento da social-democracia, se afastou de suas bases, entrou no pântano e não sabe mais qual o seu caminho. A extrema direita agora recorre ao liberalismo de numa maneira mais fundamental e como nos misturamos com os liberais, nos confundimos em nosso pensamento, eles estão enterrando seus mortos e nós ainda hesitamos em enterrar os nossos.
A natureza e a história são cheias de surpresas e contradições, oscilam e nos enganam a cada virada. Por isso, podemos olhar para o atual movimento conservador e reacionário como uma tendência material e subjetiva que põe fim a algo que ajudamos a construir e poderíamos ter avançado na superação. Mas nos acomodamos e agora temos que aprender na necessidade. Talvez não poderia ter sido diferente, senão teria sido. O que vai ser ainda depende de nossas escolhas e não depende delas somente mas da capacidade de interpretar o movimento independente da realidade.
Os comunistas terão que se recompor, reinterpretar sua própria teoria, criar, escrever, pensar, falar menos por um tempo ou escolher bem as palavras e as situações, escutar muito. O conflito se avizinha e a verborragia é ainda herança de tempos de relativa paz e debate, quando sentávamos na mesma sala e compartilhávamos premissas, pontos de vista. O debate ficou tenso e pouco a pouco o espaço comum se esvazia, bebemos de águas diferentes. Apesar de este texto ser público, pergunto entre nós: a nossa força está na razão? Reivindicamos a ciência, assim como eles. Mas não se trata da mesma ciência e não podemos descolorir nossos argumentos. Sabemos que os gráficos deles estão podres por dentro e a realidade o demonstra todos os dias, não são capazes de produzir arte e de compreender poesia. E nós ainda não derrubamos os muros que nos compete derrubar. É hora de forjar as ferramentas do futuro!

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