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Mostrando postagens de março, 2020

[crônica] Sobre parasitas, vida e valor

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Uma das coisas mais curiosas dos últimos dias é o reconhecimento público e histérico de que a economia precisa de trabalhadores. Parece uma coisa óbvia, contudo, cotidianamente, sem uma pandemia para que as pessoas falem abertamente, o teatro do mundo oculta a importância daquele que executa as tarefas atrás daquele que dirige o processo de trabalho. Assim, o trabalhador que obedece aceita baixos salários, humilhações, ameaças de desemprego, assédio moral e etc. Soma-se a isso a visão de quem obedece como inferior, quase um animal, ensinando às crianças na escola que elas devem estudar pra "ser alguém na vida". Pois é, isso ficou um pouco mais complicado justamente no momento em que a humanidade se vê bagunçada por uma pandemia.  O risco de transmissão para toda a sociedade envolve os setores médios e até da classe dominante, que só pode diminuir o perigo evitando o contato, as aglomerações, o transporte e o trabalho. E então quem aparece? O trabalhador, que não é ninguém,...

[crônica] Teste de vacina - lote x

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Estamos diante de uma grave crise e a ansiedade nos consome. Penso que este estado de agitação é como um instinto corporal para que estejamos preparados para uma reação imediata, para nos defender de alguma ameaça ou porque sabemos que precisamos agir de alguma maneira. A mudança radical nos nossos hábitos, a interrupção do trabalho repentinamente. Justamente esta atividade que não pode nunca parar, mesmo diante de tantos motivos para parar e de tantas tentativas de greves para melhoria da vida. Não, hoje o trabalho pára por necessidade....do Capital. Se ele não parar, a crise vai ser maior e os riscos de explosão social serão incontroláveis. Agora já não são propriamente controláveis, uma vez que a situação daqueles que são "autônomos" é de profunda dependência dos consumidores e os efeitos econômicos serão catastróficos. Os comerciantes, como os "autônomos" ou "empreendedores" sofrem a agonia de ver os prejuízos aumentarem. E não existe acordo social qu...

[crônica] O decalque da guerra ou vou falar de "coronga" de novo

Como que fazendo um raio-x, analisando a profundidade do espírito dos povos vemos os nomes pelos quais estes chamam o cenário natural a seu redor. A língua guarda segredos que as especialidades científicas demoram muito a descobrir. Por isso hoje resolvi falar do menino Wesley, de 14 anos, que trocou o nome do "coronga" vírus propositalmente, creio eu, porque trocar as palavras é um meio de ele fingir que não sabe do que tá falando. Como quem ta acostumado a ouvir: você sabe com quem você ta falando? É o decalque da guerra. Passando uma vista no que o oráculo moderno tem a dizer, encontro um artigo de José de Souza Martins, de 2003, que me remete à língua brasileira proibida, o Nheengatu ou língua geral.  Se pensar bem, o que aparenta ser um problema de dicção é toda uma linguagem que se recusa a aceitar a norma padrão, ainda que também seja expulsa de uma norma que não pára de se modificar deixando sempre pra trás quem não deve ser proprietário da própria língua. É o deca...

crônica] A metonímia pandemônica do capitalismo

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Como todos devem estar falando nas pausas do café, nos encontros casuais, nas aulas e reuniões de trabalho. Instalou-se uma pandemia na sociedade mundial. E a indústria cultural passa à margem das questões centrais, obviamente, já que seu papel é justamente distrair a massa. E a massa desconfia da indústria cultural, recorrendo a seus infinitos tentáculos para se informar melhor. Bem vindos! Não há saída, todas as informações parecem duvidosas, o medo e a incerteza se alastram como vírus. Mas o medo não é bom para os negócios! Porque alguém teria interesse no pânico geral. Afinal, o vírus é ou não perigoso? Só mata os velhinhos... Mas distrai a todas as idades.  Recomendo as análises de Jason Borba e José de Souza Martins (links abaixo). A pequena rua de Nova Iorque representa alguma coisa nisso. Ontem, Donald Trump falou que não é uma crise financeira e falou do vírus como mais uma vez em que os americanos e a humanidade vão lutar para sobreviver. Afinal, ele está respondendo a...

[aforisma] O liberalismo e seus tentáculos

Essa doutrina filosófica, corrente política, própria da burguesia desde sua revolução, já convive com as ideias socialistas desde a grande Revolução Francesa, quando a pequena burguesia promove a distribuição de riqueza. Quando os operários se tornam mais numerosos e buscam se organizar em partidos próprios, o liberalismo já se infiltra em suas fileiras para que os operários defendam a liberdade...da burguesia. Todos livres e iguais, palavras de ordem da burguesia contra a nobreza, agora na boca dos operários. Desde o final do século XIX vivemos a sombra do reformismo pequeno burguês na consciência do trabalhador. E essa sombra, ofuscada pela Revolução Russa que mostrou que outro caminho é possível, dividindo o mundo e mostrando toda a capacidade dos trabalhadores e seu projeto revolucionário, ficou enfraquecida. Com o fim do Estado Soviético, muitos acreditaram que o capitalismo fosse absoluto, o liberalismo novamente toma as fileiras dos trabalhadores. O Partido dos Trabalhadores, n...