Diário das palavras 2
chuveiro de tanto que ela rolou, acabou ficando encanada. encanou que vinha na pressão pra aliviar os corpos, sedentos, sujos e sofridos. saiu numa torrente violenta sob o ruído do alto ou num chuvisco engasgado, como choro reprimido, meio entupido. molhou nossa cara enrugada de tantas tensões sem resposta, cansada da labuta e da conversa mole. é preciso tomar o seu curso, lavar o veio da terra, tal qual cachoeira, tempestade, tormenta. daquela que rasga a carne, levanta casa, vira tudo do avesso. fazendo jus aquele ditado da pedra, porque fura. pode ser pingando porque a vida é curta pra presenciar todo seu ciclo. mas certamente no encanamento não vai ficar, não cabe ali.