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Mostrando postagens de outubro, 2020

Diário das palavras 2

chuveiro de tanto que ela rolou, acabou ficando encanada. encanou que vinha na pressão pra aliviar os corpos, sedentos, sujos e sofridos. saiu numa torrente violenta sob o ruído do alto ou num chuvisco engasgado, como choro reprimido, meio entupido. molhou nossa cara enrugada de tantas tensões sem resposta, cansada da labuta e da conversa mole. é preciso tomar o seu curso, lavar o veio da terra, tal qual cachoeira, tempestade, tormenta. daquela que rasga a carne, levanta casa, vira tudo do avesso. fazendo jus aquele ditado da pedra, porque fura. pode ser pingando porque a vida é curta pra presenciar todo seu ciclo. mas certamente no encanamento não vai ficar, não cabe ali.

o passado ameaça

o passado e nossa origem, espacial, temporal e de classe, do povo, de gênero nos ameaçam. nós estamos sempre com ele no encalço, alguns correm pra sombra não pegar mas ela nunca se separa. outro não se importam com ela. mas no sabemos de quantos joãos e marias viveram uma vida de trabalho, para além do suportável, preso à roda que lhe tortura, sem ao menos entoar um gemido de revolta e insatisfação para superar a sombra da miséria. não que essa sombra não ameace realmente a todos de uma classe que trabalha. sabemos quantos não hesitaram quando apareceu a oportunidade de viver e não foram capazes pelo medo. ou aqueles que, lutando contra o medo, encontraram o medo do medo e despertaram numa luta consigo mesmo, fugindo da própria sombra no mesmo instante que se posiciona no ângulo em que esta aumenta demasiadamente. ela se torna invencível e nós viramos crianças perdidas e assustadas, incapazes  de reconhecer a ligação do ser com sua representação imaginária e assombrosa.  ...

Diáro das palavras 1

 Passageiro relacionado àquele que está de passagem. ou que tem uma passagem para qualquer lugar. não se sabe se chegará mas está no passo. no lugar de passagem onde tantos transitam, por vezes aleatoriamente, ainda que pensem haver um destino. ou estão tão presos à direção que não se apercebem ao passageiro, que, relacionado, confunde-se com o próprio definitivo e permanente. tantos passageiros fazem parte do movimento tectônico das placas e, ainda que tão presos a suas próprias engrenagens. a coisa toda não anda, o movimento acontece, até que aparentemente rasga numa sub elevação ou padece num perecível presente durável e troiano.