[crônica] O espelho e o ressentimento político em 2018

expressão mais contraditória do momento. Poderíamos dizer que Bolsonaro é o grande líder das massas, o substituto do que foi o grande líder Lula com sinal trocado. Mas como Marx disse a respeito de Luis Bonaparte, esse "mito" não passa de um nanico, a farsa que procede à tragédia. Um olhar psicológico permite ver que a grande expressão nacional deste está em correspondência com a sua pequenez de espírito. O ressentimento contido em suas ações desde sua primeira aparição pública inicial nos permite arriscar sua liderança efêmera e de pouca profundidade, seu caráter de instrumento em oposição ao de sujeito histórico. Não estamos falando ainda de sua aparição como político na democracia, satisfeito com sua posição folclórica e sua ineficiência parlamentar - tendo aprovado apenas 2 projetos em 27 anos de mandato como deputado federal (Estadão, 23/7/2017). Mas seus consecutivos mandatos de deputado federal não são esse começo.
O atentado planejado por Bolsonaro, a "operação beco sem saída", tinha como objetivo amentar os salários dos oficiais. Como revela um documento sigiloso do exército ele demonstrou desde o início de sua carreira militar uma "excessiva ambição de realizar-se financeira e economicamente" (Folha, 16/05/2017). Isso por si só não demonstra seu ressentimento e o consequente ódio que descarrega em seus inimigos diante de sua frustração pessoal. A tentativa de reivindicar aumento salarial com atividades "subversivas" não correspondem com seu discurso repressivo para com os direitos dos trabalhadores. Ou melhor, é uma atitude meramente voltada para si, oportunista. A opção pela carreira política certamente satisfez sua vontade de riqueza. Melhor ainda, conseguiu colocar sua família na política através de seu discurso militarista, canalizando o ressentimento de setores militares com o retorno à democracia. Novamente neste campo não pôde avançar por defender ideias anacrônicas de um período que havia se esgotado por impossibilidade histórica dos militares governarem um país complexo com interesses diversificados e mergulhado na descrença diante de tantos abusos e desmandos. Sua característica ambiciosa, que poderia ser vista como um ponto positivo no ideário liberal, não se desenvolveu pelo descompasso de suas propostas com uma sociedade que se voltava para questões sociais muito além das mesquinharias e privilégios que os militares queriam preservar. Dentre eles as benesses econômicas, pensões vitalícias, verbas especiais, ajudas de custo e, não menos importante, a impunidade, ou melhor, nos termos da lei, a anistia.
A ascensão de um governo democrático e popular, de conciliação de classes, que realiza uma grande façanha nacional a partir de um "toneiro mecânico com tendências socialistas" que fez o "capitalismo funcionar" (Lula, em entrevista ao programa 60 minutes dos EUA, 5:40 min), cativou desde a burguesia até os trabalhadores e, pasmem, Bolsonaro - que também votou em Lula em 2002 (Gazeta do Povo, 31/07/2017). É claro que Bolsonaro não resistiu ao movimento que os próprios militares fizeram em direção ao lulismo, que realizava a incrível conciliação que os militares não conseguiram e nem conseguiriam por seus meios. Tal projeto fortaleceu o exército, a burguesia e a identidade nacional. O aumento do orçamento da defesa cresceu de R$ 24,85 bilhões para R$ 61,2 bilhões - duas vezes e meia - entre 2003 e 2011. Segundo o Ministro da defesa do governo Lula, a questão do orçamento preocupava mais do que a recém criada Comissão da Verdade. Além de um aumento de 30% no salário em meio à crise internacional (O Globo, 15/09/2012).
A virada politica que se deu com o fim dos governos petistas não dependeu da vontade de um homem ressentido, uma vez que este busca ser reconhecido desde sua tentativa frustrada de aumentar o salário dos oficiais do exército. Bolsonaro é antes um instrumento do ressentimento social da pequena burguesia decadente e mesmo daquela ascendente. No primeiro caso, o ressentimento já esteve cozinhando em fogo brando durante anos em que a diferenciação social desta pequena burguesia deixou de funcionar com o acesso de setores da sociedade à voos e serviços antes restritos a uma minoria da população. A promoção de estilos de música da periferia, como o Rap e o Funk também podem ser citados como exemplos de constrangimento social, gerando uma reação conservadora em quem não aceita a cultura negra. Aqui a classe social se mistura de forma bastante sugestiva com a questão racial a ponto de reunificar as demandas por liberdade dos povos escravizados com a luta geral dos trabalhadores por um mundo justo para todos. No segundo caso, da pequena burguesia ascendente, que se chamou de nova classe média ou classe "C", foi o expoente material que sustentou a ilusão de um "país de todos". Esses setores se alimentaram da dinamização da economia que sabemos não foi responsabilidade exclusiva do PT - assim como a crise econômica não foi - e se frustraram diante da impossibilidade de alimentar os sonhos de crescimento e ascensão que foram alimentados. Agora, essa "nova classe", que não passa de uma intermediária e amortecedora do conflito social durante o período de bonança, se ressente com esse papel de instrumento usado e descartado. Aprendeu a linguagem de seus senhores burgueses, traduzida pelos representantes sociais democratas aos trabalhadores, e afirma sua capacidade empreendedora de reverter sua situação para além do governo do PT e de qualquer movimento coletivo, partido ou grupo. Provavelmente os trabalhadores estão também ressentidos com a mediocridade de um governo do Partido dos Trabalhadores ou descrentes na capacidade de trabalhadores de organizar qualquer coisa. Esta classe volta a seguir seus primos sociais, essa pequena burguesia ressentida, que os levou a seguir com o PT e agora a votar em Bolsonaro.
Como o militante comunista, intelectual e estudioso do fascismo João Bernardo aponta, são esses pequenos patrões que se frustram com a derrocada de seus negócios ou com a impossibilidade de prosperar e realizar seu sonho capitalista. E por isso, não podendo abandonar a condição de capitalistas nem seguir a configuração atual da propriedade, fortalecem uma "terceira via", a ultra direita, o fascismo. Não reconhece que os grandes capitalistas se beneficiam da corrupção e para não condenar seus próprios senhores e o fundamento da ordem, acusam os políticos de subverter a lógica da concorrência e da propriedade privada. E essa pequena burguesia está muito próxima da classe trabalhadora nas relações pessoais, influenciando está em diversos momentos.
É o alinhamento dos astros, a confluência das classes ressentidas com o ressentimento de um líder medíocre como Bolsonaro, construído como opositor e espelho de outro líder, que o permite chegar ao poder. O desespero de ver frustrados suas expectativas leva toda uma nação organizada segundo valores moralistas de esquerda para uma inversão radical para o moralismo de direita, também nacionalista. Lula criticava o "complexo de vira lata" do brasileiro, buscando elevar a moral da nação. O mesmo se orgulhava de colocar o país mais parto do topo da economia mundial. De fato mudou o mobilizou o sentimento nacional ao conciliar as classes exploradoras e exploradas num projeto democrático e popular. A origem do PT, ligado à oposição católica contra a Ditadura, a organização das Comunidades Eclesiais de Base (CEB's) está representada na visão romântica sobre a família. Os programas sociais "Bolsa Família" e "Minha Casa, Minha Vida", bem como a tentativa de preservar as relações no campo pela Reforma Agrária voltada para a agricultura familiar são a promoção dos valores familiares entre os trabalhadores. Foi uma tentativa de aburguesar os trabalhadores, incluí-los na vida "normal" dessa sociedade, ampliar o consumo, colocar cada vez mais gente na chamada classe média. Esse conservadorismo de esquerda é o primo pobre do conservadorismo que se desenvolve com Bolsonaro. O homem simples que foi Lula no poder se repete na figura de deste último. Se antes Lula era acusado de analfabeto e defendido pelos seguidores, agora acontece o mesmo com sinal trocado. É impressionante como a massa se modela de um polo a outro em tão pouco tempo mas a surpresa provavelmente se deve a uma espécie de idealização das diferenças. É nisso que precisamos focar, o quão semelhantes são esses pólos e o como podemos nos parecer com o que criticamos, uma vez que não estamos fora dessa massa alucinada que se dividiu entre "coxinhas" e "petralhas". Se colocar de fora é uma atitude bastante reconfortante mas possivelmente ilusória e certamente não reconhecida pelos "outros". Você pode não se identificar com seus rótulos mas você ganhou um.
Se Lula foi inocente em acreditar que era o grande líder capaz de fazer o capitalismo se humanizar, o segundo acredita que a humanidade é seu próprio espelho. Se o primeiro se ressentiu e com a sua prisão e impossibilitou a vitória eleitoral de Ciro Gomes, querendo humilhar seus opositores, o segundo se ressentiu muito antes e sua liderança é o próprio ressentimento. Além disso, um alimenta o outro, não intencionalmente, é claro. Um companheiro, conhecido como paulinho ou tijolada, disse no início da campanha eleitoral "Bolsonaro é o melhor cabo eleitoral do Lula", confiante de que a campanha folclórica do primeiro não se efetivaria numa democracia sólida como a brasileira. Aconteceu que o contrário também era verdadeiro e, até o final da eleição, era possível vislumbrar a possibilidade de o lulismo se reerguer. Agora ninguém mais acredita nessa possibilidade. 
Hoje, a extrema direita aponta o PSDB como uma espécie de socialismo. O próprio Bolsonaro insinua que Fernando Henrique Cardoso é comunista (Folha, 5/11/2018). E assim afirmam que a política brasileira após a redemocratização (principalmente de 1994 a 2018) é uma sequência de governos socialistas, que PT e PSDB manipularam o país com uma falsa polarização, colocando tanto o socialismo como a democracia no banco dos réus. Sem reconhecer a diferença entre liberais e socialistas tiram do baú suas ideias militaristas, conservadoras e ditatoriais, assim como a serpente do ovo. Ora, mas uma coisa é certa, quem identificou o socialismo com o liberalismo foram justamente os social-democratas que defenderam a humanização do capitalismo e uma democratização da economia capitalista. O sonho da mudança gradual e pacífica durou algum tempo, embalando o sono do conjunto da esquerda. Como se fosse possível, o conjunto das classes acreditou, se frustrou e se voltou contra isso. A grande burguesia, que não pode assistir ao desenvolvimento de uma crítica de esquerda e ao crescimento das ideias revolucionárias solta seu cachorro louco antes que a fúria social se volte contra ela. Agora a extrema-direita critica o "complexo de vira latas" quando  afirma sua supremacia masculina, heterossexual e branca. Não existe um projeto nacional, não pelo menos com todos os cidadãos,  é autocracia e servilhismo.
É claro que essa disputa pela identidade nacional é antiga e não termina por aqui, hoje se voltam para a brancura e cristandade norte-americana. Essa identidade nacional que se volta para seus parentes no exterior não pode senão invocar os parentes - não de sangue - mas de classe perdidos no mundo. Vamos, acabem com essas nossas diferenças, com essa conversinha democrática e escancarem a luta de classes! Que a vossa crise seja a nossa superação! Oh! ironia da história, nos surpreenda de novo! Temos um mundo para construir!

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