[micro ensaio] A ditadura democrática e nossa estratégia

Se entendemos o mundo contemporâneo como um mundo livre no sentido liberal, não há porque não usar da liberdade de expressão e de pensamento abertamente. É assim que as instituições democráticas nos incentivam a participar e dar nossa opinião, representar e se fazer representar nas instâncias do Estado moderno, no parlamento, nos conselhos participativos, inclusive em algumas empresas que criam tais conselhos por saber da dificuldade de contar apenas com a força e coerção. 
Nossa tradição se confunde com essa liberal quando fomos derrotados em nossa Revolução e retrocedemos até abrir mão de nós mesmos, de nossa filosofia, da tese de que a sociedade burguesa é uma ditadura de classe. 
Fizemos isso e de fato, hoje, nos parece inconcebível afirmar que vivemos uma ditadura. Os mais velhos, que viveram o período militar sabem da diferença e lembram do que se trata uma ditadura militar. Assim, a experiência organizativa e política de nossa classe nos forjou para lutar pela democracia, enquanto o mundo perdia seus referenciais comunistas que impulsionaram o mundo capitalista a se humanizar e criar direitos, competindo por um projeto superior ao concorrente soviético. 
Podemos chamar de ditadura um regime que permite a liberdade de expressão e de opinião? Podemos chamar de ditadura esse mundo liberal? A tradição comunista classifica a sociedade burguesa dessa maneira. Porém, o único caminho para isso hoje é qualificar que tipo de ditadura seria essa. Além de ser uma ditadura de classe, como outras que já estão superadas, esta seria capaz de nos transmitir a ideia de que vivemos num reino da liberdade. A democracia burguesa permite que todos tenham espaço de representação e devemos ir além da mera afirmação de que isso é uma ilusão. Devemos desmontar essa ilusão.
Além da representação que é responsável pela elaboração das leis, da execução da política, dos debates sobre as questões mais diversas, existem instituições que criam os valores, as crenças e superstições. As religiões do período medieval apenas se adaptaram para existir num mundo que lhes queriam extintas, novas sugiram mais adaptadas ao espírito capitalista, de modo que hoje quando não promove uma moral da submissão simplesmente, a religião prepara o terreno do individualismo na forma da vocação divina, retirando o protagonismo do sujeito humano. Paralelamente, a ideologia dominante promove a valorização da iniciativa privada na economia, afirmando a necessidade desta para obter riqueza. Ou seja, quando atribui o protagonismo ao sujeito humano é pela "mão invisível" do mercado que, lida por um cristão, sera tranquilamente a mão de Deus. 
Nessa ditadura o pensamento liberal é o sinônimo de bom senso. Por isso, não se trata de impôr a racionalidade à tradição, simplesmente, vencer no debate de ideias. Se estamos no campo da ciência, combatemos com ciência. No terreno do senso comum é preciso construir um bom senso (crítico) das ilusões que sustentam a ditadura de classe. Ou seja, por vezes, em momentos de agitação, é necessário bradar uma verdade e denunciar energicamente um oportunista e uma ilusão. Em outros, fazer breves comentários ou se retirar de espaços. É preciso reconhecer que algumas disputas serão feitas ao longo de muitas batalhas. E não vale a pena queimar todos os cartuchos na primeira luta. Na verdade, não é desejável se dar a conhecer aos adversários por inteiro no início da guerra. Fazer isso é acreditar na durabilidade da paz e da liberdade de expressão, na igualdade de todos perante a lei de modo permanente. Em alguns momentos estaremos públicos em outros clandestinos. Ou melhor, estaremos mais públicos em algum momento ou situação e mais clandestinos em outros momentos e situações. 
Se na ditadura aberta temos que criar células militares e/ou agir clandestinamente no cotidiano, na ditadura dos costumes, velada, onde a força é menos preponderante e o que nos molda é a ideologia, temos que rondar nossas conclusões como que dançando com aquele que queremos que nos acompanhe. O senso comum democrático que envolveu a esquerda nas últimas décadas enfrenta, por exemplo, quem peça eventualmente um governo centralizado, sem considerar a possibilidade de acompanhar sua argumentação como quem também quer uma ditadura ou pelo menos reconhece a ditadura atualmente existente, ainda que velada.  Não seremos salvadores iluministas da humanidade, seremos a vanguarda apenas no sentido de quem vem antes mas desta vez não será pela razão mas pela fusão de nossas capacidades, racionais e emocionais.

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