[micro ensaio] os ismos e o Comunismo
Com o avanço das questões democráticas, desde os anos 60, sobre a desigualdade entre os gêneros, etnias/raças e, posteriormente, sobre outras diversas identidades e condições que fazem uma parte dos cidadãos serem considerados como "meio" iguais, muitos debates foram se aprofundando sobre a subjetividade e a luta por igualdade dentro do capitalismo.
Digo dentro do capitalismo porque, paralelamente a isso, a URSS e o bloco soviético passavam por uma grave crise decorrente do isolamento econômico do projeto comunista das condições de produção avançada dos países industrializados. Em 1956, explodia o relatório de Kruschev, que denunciava a perseguição de Stalin e colocava em descrédito o modelo comunista de superação do capitalismo. Os comunistas continuaríamos tentando uma superação apesar do atraso econômico de suas bases e da impermeabilidade eficiente dos países capitalistas mais avançados. Nos EUA, por exemplo, os Panteras Negras tinham uma identidade com a Revolução mas o que prevaleceu após sua derrota foi sua contribuição para a questão do avanço democrático liberal. O movimento feminista, da mesma forma, possuía uma identidade com a luta de classe dos trabalhadores mas também deixou a cor vermelha para adotar o lilás e suas lutas foram se tornando cada vez mais voltadas para o culturalismo e para os dilemas privados e exclusivamente de gênero, quando não alimentados por batalhas individuais pelo sucesso profissional diante de um mundo androcêntrico (dominado pelos homens e pelo gênero masculino, pelas referências masculinas, para além dos homens).
Essa emergência de lutas pela igualdade civil serão vistas como uma novidade e inspiraram a teoria política dos "Novos Movimentos Sociais" e perspectivas da pós-modernidade que afirmam o caráter "pós-material" desse contexto histórico. As explicações inspiradas nessas lutas são, portanto, críticas ao marxismo que afirma a necessidade de uma mudança econômica e política na sociedade, o fim do capitalismo. As teorias que nos referimos defendem uma mudança jurídico-política que inclua esses grupos na disputa pelo poder de Estado ou pela direção das políticas públicas, mesmo que não ambicionem a tomada do Estado. Ou seja, mesmo seu caráter político aceita perfeitamente a abdicação do poder de Estado por parte desses movimentos, dando a eles por vezes a feição de movimentos revolucionários por essa razão.
A perspectiva do sujeito fragmentado, de muitas faces, contra o sujeito revolucionário unificado do marxismo, passa a exaltar os diversos discursos silenciados nos contexto comunistas. O atraso econômico-político dos países comunistas contribui para o desenvolvimento da ideologia liberal nas lutas feministas e étnicas, já que essas questões começam a amadurecer nos países mais avançados e, de adversários, se tornam auxiliares já que não são formalizadas nos países socialistas. A inexistências dessas demandas nesses países se torna uma denúncia de opressão, com alguma razão, já que existem mas não aparecem como uma questão. A questão da perseguição dos dissidentes comunistas por Stalin e pelo Estado soviético reforça essa visão. Vence o discurso identitário que parece concordar com a supremacia duradoura do capitalismo diante da ruída do projeto comunista no final dos anos 80.
A especificidade do sujeito revolucionário, dos trabalhadores - que são de diferentes gêneros e etnias, defendida por Marx, passa a ser utilizada para defender o caráter revolucionário das lutas indígenas, de negros e mulheres, separadamente. Surgem diversos de sujeitos revolucionários, potencialmente milhares já que o limite é a subjetividade individual: cada um com sua revolução interna, própria, cultural. O liberalismo se reergue com a reafirmação do sujeito individual que muda sua história e com o isolamento dos trabalhadores.
No caso do movimento indígena boliviano, acreditam possuir uma cosmovisão única, diferente de todos os demais povos, que respeita a diversidade e busca a igualdade. Pode ser verdadeiro mas dificilmente é universalizante: será que os bolivianos nos guiarão até um mundo novo? Nem entre eles mesmo não conseguem fazê-lo, já que são compostos por diferentes etnias e disputam entre si por valores, palavras e explicações de mundo. No caso das mulheres, alguns grupos feministas afirmam a especificidade do sujeito mulher que faria esta ser a vanguarda da emancipação humana, recorrendo a uma visão romântica do matriarcado e à suposta capacidade inata feminina para o cuidado. Certamente existe um elemento verdadeiro nessa tese, excluindo o inatismo e a centralidade do gênero na condução do processo. Apesar de a divisão sexual do trabalho ser a mais antiga que se tem notícia, assim como a divisão etária, também muito antiga, ela coexiste com formas posteriores e mais determinantes de divisão do trabalho. A divisão do trabalho baseada na classe inclui, evidentemente, subdivisões de gênero, etárias, étnicas e etc., contudo, se torna determinante das demais.
Por isso a destruição da divisão de trabalho baseada em critérios de gênero, étnicos, de classe, deve começar pelos mais desenvolvidos para finalmente construir um tipo novo, baseado no desenvolvimento humano, subjetivo, e nas necessidades humanas, independente de origem e propriedade.
Por isso a destruição da divisão de trabalho baseada em critérios de gênero, étnicos, de classe, deve começar pelos mais desenvolvidos para finalmente construir um tipo novo, baseado no desenvolvimento humano, subjetivo, e nas necessidades humanas, independente de origem e propriedade.
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