[trechos] A epidemia e o destino nos Capitães de Areia
Ocuparam a mesa do canto. O Gato puxou o baralho. Mas nem Pedro Bala, nem João Grande, nem o Professor, tampouco Boa-Vida se interessaram. Esperavam o Querido-de-Deus na "Porta do Mar". As mesas estavam cheias. Muito tempo a "Porta do Mar" estava sem fregueses. A varíola não deixava. Agora que ela tinha ido embora, os homens comentavam as mortes. Alguém falou no lazareto*. "É uma desgraça ser pobre", disse um marítimo.
Num mesa pediram cachaça. Houve um movimento de copos no balcão. Um velho então disse:
- Ninguém pode mudar o destino. É coisa feita lá em cima - apontava o céu.
Mas João de Adão falou da outra mesa:
- Um dia a gente muda o destino dos pobres...
Pedro Bala levantou a cabeça, Professor ouviu sorridente. Mas João Grande e Boa-Vida pareciam apoiar as palavras do velho, que repetiu:
- Ninguém pode mudar não. Está escrito á em cima...
- Um dia a gente muda... - disse Pedro Bala, e todos olharam para o menino.
- Que é que tu sabe, frangote? - perguntou o velho.
- É o filho do Loiro, fala a voz do pai - respondeu João de Adão olhando com respeito - O pai morreu pra mudar o destino da gente.
Olhou para todos. O velho calou e também olhava com respeito. A confiança foi de novo chegando devagar. Lá fora um violão começou a tocar.
Trecho de "Os Capitães da Areia" de Jorge Amado
*Lazareto era um vilarejo da Irmandade de São Lázaro, transformado em hospital para os mais pobres, numa região longínqua da cidade de Salvador. Diz-se no livro que os que iam para lá com varíola não voltavam. Boa-vida voltou e disse que estar lá era como estar no cemitério.
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