[crônica] Diário do coronga: teremos imunidade?

Passado alguns dias, depois de convulsionarmos diate da ofensiva que nos queria colocar na máquina em pleno processo de isolamento. Aquele vai não vai parecido ao prende, solta, prende solta. A indecisão da classe dominante frente às difíceis decisões que se aproximam, nos brindaram incríveis cenas tragicômicas. Isso se nos considerarmos espectadores desse horrendo espetáculo mundial. Claro que, podemos nos considerar ativos, ainda que a nossa capacidade de sermos sujeitos neste momento esteja bastante difusa e debilitada. Mas ainda podemos convulsionar de raiva, isolados fisicamente, mais que socialmente, diante da barbárie que se agiganta a nossos olhos. 

Agora, não. Entramos na nova fase, a quarentena se faz realidade ainda que precária. Neste novo momento, a pressão não é apenas par voltarmos ao trabalho mas também para trabalharmos em isolamento, fazendo de nossas casas parte da linha de produção. E isso abre infinitas possibilidades de acumulação. E de novos sofrimentos. Sabemos da dificuldade para conciliarmos nossa vida pessoal com o trabalho no dia a dia, agora isso se torna ainda mas grave. Sem falar nos trabalhadores da saúde que chegam e casa (quando estes permanecem em sua própria casa) e não podem ter contato com seus filhos/as. A queima de capital desta crise de (super)produção é sobretudo morte. O podcast da Folha de SP (Café da manhã) do dia 13 de abril dá uma dimensão do drama. As crianças da classe trabalhadora no trabalho informal, alimentadas normalmente nas creches e escolas públicas, agora comem em casa enquanto seus pais estão sem meios de sobrevier. A redistribuição do valor da merenda, quando é feita, é insuficiente, assim como a ajuda emergencial do governo, que ainda por cima é retardada. 

A convulsão é justamente por isso, a velocidade desta máquina não permite parar sem sequelas, ou mesmo refrear seu movimento, ajustar sua velocidade e o modo de ser operada. E isso quebra uma inércia, é a própria manifestação da crise. 

Mas além deste aspecto pessimista,digamos assim, da crise há outro. Estou falando de um otimismo que poderá ser eventualmente acusado de idealista mas que está na ação de todo sujeito, na afirmação e na aposta sobre o futuro. Não aposta no sentido liberal da teoria dos jogos mas da ação estratégica. Errar não é apenas não conseguir prever o futuro mas também não conseguir colocar as questões a tempo e de modo a serem encaminhadas como força social. Enfim, vamos ao aspecto otimista deste ensaio cronicado (ou desta crônica ensaística?).
A quebra da inércia. Digressão: e neste ponto quero fazer mais uma referência, à apresentação de Paulo Arantes, com participação de Airton Krenak, num evento do teatro em SP (Link abaixo). A máquina capitalista foi atingida por uma crise econômica e por um vírus, um vírus que gerou uma crise econômica ou um encontro catastrófico entre eles, não importa, isso gerou uma quebra da inércia. Agora, reviver a possibilidade de morte coletivamente (de algum modo revivendo a crise de 1929 e a Guerra, o extermínio atômico da humanidade em toda sua amplitude, acrescido de ameaças naturais e ecológicas) nos obriga a encarar nosso modo de vida e reavaliar o ponto onde paramos. 

Seja o "fim da história", do final da Guerra Fria, seja o neoliberalismo que nos colocou num ritmo frenético de vida, a inexistência de um inimigo (como fala Byung-Chul Han) acabaram. Ou melhor, agora nos deparamos novamente com a possibilidade de um fim real, seja ele um recomeço, seja a percepção das possibilidades catastróficas cada vez mais reais do capitalismo. É evidente, não podemos deixar de reconhecer, e Paulo não deixa de fazê-lo como grande guia que é, que a nossa tribo de dissidentes do povo branco, os comunistas, tivemos problemas em nossa experiência. Nem por isso abandonamos nossa tradição mas temos, juntamente com as demais tribos, um grande desafio de, enquanto somos caçados, organizar uma fuga e um contra ataque que nos permitirá existir num novo mundo. Isso (a emergência) nos obriga a sermos mais cordiais uns com os outros, enquanto caçados que estamos e desejando viver. Se formos capazes de fazê-lo, poderemos desenvolver a imunidade para os demais vírus. 

PS: Os capitalistas podem ver o vírus como um bênção como sugere a análise de Paulo Arantes e de outros que citei em outras crônicas, como José Martins, em minha avaliação. Porém, nós estamos encurralados e também podemos transformar a doença na cura, já que querem fazer da nossa doença e morte a cura do capitalismo, ou melhor, o adiamento do fim do mundo. 

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