[aforisma] a organização revolucionária na beira do abismo
"antes a frase ia além do conteúdo, agora o conteúdo vi além da frase" Marx
As reflexões sobre organização dos revolucionários esteve muito associada aos sucessos da Revolução de Outubro de 1917 mas nem só de sucesso se vive uma empreitada. Como a tarefa que temos é internacional, intergalática se quiser, vamos quero lembrar de algunas cositas que quedaron atrás. Nosso querido Marx, que não é o gênio da bússola mas sabia onde pisava, andou conversando e fazendo parcerias nas terras que depois seriam a ponta de lança da Revolução de Lenin. Em suas conversas com os populistas russos, depois de teimar consigo mesmo, admite que existe uma possibilidade revolucionária que não era prevista em sua cachola. Essa possibilidade não é levada a sério pelos revolucionários, com exceção de alguns poucos, e tem a ver com saltar etapas e aproveitar a tradição comunitária ancestral na construção da nova sociedade. Quem conhece Marx sabe que ele jamais abriria mão daquilo que identificou como sendo a grande vantagem do modo de produção capitalista que é a força produtiva em relação a tudo que veio antes. Somente com a técnica desenvolvida no centro capitalista, essas comunidades poderiam saltar estágios e ser a base da sociedade comunista.
Como os vencedores contam a história e isso não serve apenas para nos dar razão, nós não somos apenas os vitimados detentores a razão, trabalhadores a espera da salvação, também somos aqueles que passam essa história adiante mas sob a etiqueta "revolucionária" ou da "crítica", Como dizer que se é não é salvaguarda pra nada vamos ao ponto. Santo de casa não faz milagres e Lenin não foi o cara que passou adiante as descobertas de Marx e dos populistas russos - graças a ele e aos camaradas bolcheviques, há quem diga que inclusive Stálin mereça esse crédito, estamos falando disso em 2020. Mas Lenin e os bolcheviques não precisam de defensores queremos falar mais um pouco de derrotas importantes. Aliás, bolchevique significa maioria e se o nosso problema com o capitalismo se resolvesse simplesmente com maioria (nacional) nós não precisaríamos de uma Revolução. Não estou em defesa dos opositores mencheviques, obviamente, mas para além das questões domésticas de nosso grande exemplo revolucionário, temos um vizinho que acompanhou todo esse drama de perto e foi esmagado como minoria, mesmo sendo favorável à maioria russa. Rosa e os espartaquistas alemães não conseguiram ser a maioria mas defenderam que a nova Revolução não usa a maioria como fantoches em favor dos iluminados. Mas ela própria é sujeito, ela faz o caminho com toda sua ignorância. Afinal, os sabichões que emolduram os quadros da sociedade sabem bem como esconder suas ignorâncias, são mestres da retórica ou da razão instrumental. E o "povão" que é composto por trabalhadores, nem sempre assalariados, guarda segredos que a malandragem sabe bem guardar pra não chamar a atenção fora de hora.
Rosa, essa outra derrotada entre os vencedores derrotados, vizinha de uma revolução que foi internacional mas que tem o epicentro na periferia, tinha uma visão sobre a acumulação capitalista relacionada a esses "outros" que estão fora do capitalismo. Segundo ela, e na linha de David Harvey, o capital precisa transformar tudo a sua volta em seu semelhante. Essa vontade se ser Deus, denunciada pela aristocracia e pela Igreja como uma heresia imperdoável, também foi adotada pelos revolucionários do século XX. Mas a força dos revolucionários não está na razão e na capacidade de planejamento, apesar dessas características serem uma vantagem em relação ao passado, não são em relação ao futuro. Como dizia Mariátegui, um comunista peruano, a nossa força não está na nossa ciência mas na nossa fé. Alguns materialistas de plantão torcem o nariz aqui, vejo os leitores do futuro fazendo isso agora, mas voltemos ao abismo que nos cerca. Se o sujeito é o explorado de dentro e o futuro explorado de fora ou da margem, aqueles que estão prestes a ser dominados nos avanços constantes da saga capitalista, não é uma classe que idealizamos mas uma classe que se refaz todo o tempo, no encontro com os recém chegados que detém nosso futuro. Junto com Paulo Albuquerque, meu camarada de primeira hora, cheguei à formulação provisória: "o centro da classe e o centro da treta". Bota água nesse feijão (e afiem suas facas)! As nossas concepções também devem estar preparadas para nossas novas descobertas, não se trata de fazer filosofia ou ciência mas de encontrar os caminhos, de fazer as pontes pra atravessar o abismo que a história e nossas certezas nos trouxeram.

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