[aforisma] A corrente e seus elos

Admito minha insuficiência teórica e ainda assim não me deixo render. Me explico: não sei exatamente onde está a teoria do elo fraco da corrente, em Lenin, mas sei que se relaciona com a condição periférica e sua potência explosiva. O camarada russo parecia ponderar a tese de Marx de que as condições materiais são determinantes para o surgimento de uma nova sociedade. Ainda que Lenin tenha feito duras críticas aos populistas russos (Narodniks), afirmando que as relações sociais comuniais tradicionais não poderiam contribuir como base da transformação revolucionária porque estavam em vias de extinção. Vera Zasulich teve troca de correspondências com Marx sobre tal tema. Este considerou as teses populistas e afirmou que existia a possibilidade de a comuna rural ser a base da transição revolucionária, por possuir um modo de vida sem classes, saltando a etapa do desenvolvimento capitalista. A condição para tal, segundo Marx, seria a articulação da Revolução na Rússia se articular com a revolução nos países industrializados da Europa, usando o desenvolvimento das forças produtivas a favor da transição, prescindindo e superando o modo de produção capitalista. 
Lenin, apesar de se diferenciar consideravelmente dos populistas russos, revelando o desenvolvimento capitalista no campo e a necessidade de organização dos trabalhadores da indústria parece carregar uma certa influência dessa importante corrente política da Rússia do final do século XIX e início do XX. A teoria do elo fraco da corrente é exatamente a defesa da vantagem do atraso no desenvolvimento das forças produtivas, onde estaria a desvantagem segundo o pensamento marxista até então. É evidente que isso não levou Lenin a abandonar a defesa do desenvolvimento econômico industrial, muito pelo contrário. Contudo, a apreensão de que a dominação é  mais frágil onde o modo de produção já é dominante mas ainda não amadureceu, já estava contida nos populistas, que reconheciam o desenvolvimento capitalista eminente. 
Essa relação entre centro e periferia é bastante interessante e permite pensar muita coisa, é o lugar de inúmeras polêmicas na esquerda, inclusive. Em um debate com camaradas sobre o centro da classe trabalhadora, o coração produtivo e estratégico mas onde a dominação da ideologia burguesa se faz ainda mais forte, chegamos a formulação semelhante ao Elo Fraco. Existe o centro da classe e isso é determinante para a formulação da teoria e da prática materialista. Mas também existe o centro da treta, onde geralmente temos a periferia da classe, a margem das relações capitalistas onde a incivilidade de todas as partes revela a explosividade constante, a treta constante. 
Neste sentido, creio ser importante considerar tanto o centro quanto a periferia, o elo forte e o elo fraco, onde apreendemos formas diferentes de se construir a mesma relação capitalista. Parece impossível entender o todo sem pensar essas partes contraditórias d dominação. Dois momentos, por vezes, intimamente relacionados. Podemos falar, por exemplo, da Revolução Industrial e da Revolução Gloriosa na Inglaterra, definitivamente o centro, local de mudanças econômicas decisivas e mudanças políticas moderadas ou conciliatórias. A França, que representava a periferia de então, pelo menos em relação ao novíssimo modo de produção, sua periferia imediata, apresentou uma revolução política radical que tomamos como exemplo de Revolução burguesa. Posteriormente, a retardatária Alemanha se consolidaria como nação e seguindo os passos da democracia e do socialismo francês desenvolve uma social-democracia que não altera sua condição de periferia. E o e o mais fraco de todos o citados, a Rússia, faz uma revolução socialista que a tornaria uma das nações capitalistas mais poderosas do planeta em finais do século XX. O mesmo ocorreu com a China, um país pobre e de tradição agrária, definitivamente um elo fraco da corrente, onde as condições revolucionárias talvez sejam mais propícias, permitindo se tornarem grandes centros posteriormente. Essa oscilação e contraditoriedade somente pode ser apreendida adequadamente pela dialética. 
Antes de concluir, gostaria de chamar a atenção para mais dois detalhes relacionados à França e a Alemanha. No primeiro caso a condição de periferia em 1789 foi decisivo para a explosão das contradições e para o desenvolvimento de uma forma avançada de ideologia. As ideias socialistas, por exemplo, tem uma importante raiz nesse contexto. No caso da Alemanha, após a experiência social-democrata e a Revolução Russa, em 1917, essa aspirante ao topo do imperialismo oferece mais um exemplo de como a periferia é explosiva. Desta vez, entre um elo fraco e outro, mostra que a contradição da contradição guarda segredos profundos. O nazi-fascismo é outra expressão ideológica avançada que nasceu do elo mais fraco, ou do antigo elo fraco em reação ao seu semelhante - a Rússia - ainda mais atrasada e, esta sim, revolucionária. 
Como conclusão penso que a riqueza ideológica das experiências do elo fraco não podem nos impedir de observar a sutileza e discrição da ideologia no centro capitalista. A capacidade de conciliação entre a burguesia nascente e a aristocracia na Inglaterra é menos analisada e esta força sutil foi herdada pelos EUA e que colocaram esta nação na liderança do desenvolvimento capitalista do século XX. Do mesmo modo, entre os Revolucionários e sua teoria marxista, predominou a teoria do elo fraco, que possui aspectos importantes para pensar a realidade da periferia. Porém, a síntese mais rica de nossa teoria está guardada, como os segredos do atraso, nas nossas derrotas. As nossas vitórias - que hoje já não são isso senão como memória - nos dão certezas nas quais já nem podemos nos segurar mais. Enquanto isso, as derrotas guardam ensinamentos perdidos nas profundezas de nossa ignorância. É preciso resgatar a força do nosso pensamento dialético, precisamos voltar a ser capazes de transformar nossas fraquezas em nossa maior força e abandonar o palavreado superficial que nos torna domesticáveis. 

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