[mini ensaio] Gêneros humanos
Existe ideologia de gênero, ou seja, conjuntos de ideias sobre ser homem e ser mulher. Uma delas é o machismo, que possui um espectro que vai do mais conservador, como o fascismo, ao mais liberal, aquele preconceito sutil e mais ou menos disfarçado com a condição feminina. Alguns poderiam dizer "o que você sabe sobre isso?!". Como eu não sinto na pele essa opressão, não é meu "lugar de fala". E de fato existe uma tendência de homens entenderem formal e superficialmente sobre isso, sendo levianos ou insensíveis à diversidade de situações e nuances do machismo. Por coerência, teimosia ou para "manter meus privilégios", insisto em discutir isso seriamente. Apesar das demonstrações e porradas que sempre tendem a me colocar no lugar-comum dos homens: ou reajo ou me calo. Alguns dizem ser besteira e fazem pouco caso. Outros dão razão e se isentam de colocar sua percepção, as nuances, de tentar entender mais profundamente. Dão razão às mulheres mesmo não concordando com tudo, já que este é o comportamento esperado pelo politicamente correto, pelo moralismo de esquerda ou pela ideologia democrática. É pena pois as contradições que nos farão avançar aparecem justamente nesse embate entre identidades de gênero ainda existentes e conflitantes. Não sou nenhum especialista ou autoridade, não é meu "lugar de fala" mas tenho muito interesse no assunto. Primeiro, porque me interesso com a justiça, com as mulheres e, principalmente, com o gênero humano. Segundo, porque sei que estou preso em um gênero, sou moldado de modo a cometer injustiças e insensibilidades e sou cobrado por corresponder ao que se espera de um homem. Ou seja, estou preso a isso, a ser territorialista, competitivo e agressivo. Acredito que existem privilégios mas também existem situações que são ruins para todos nessa divisão de gênero. Penso que a nossa sexualidade e convivência, nossa cultura de modo geral, é muito empobrecida por conta desse apartheid.
Após concordar com minhas companheiras feministas, queria colocar algumas ideias que parecem polêmicas mas apontam para uma forma de ver mais profunda. E espero ter razão nisso. Quando nos socializamos como homens e mulheres, deixando de lado a questão da sexualidade, nos tornamos seres sociais. Ao mesmo tempo nos tornamos trabalhadores e burgueses, brasileiros, americanos, chineses e etc. Ou seja, nossa identidade se faz com o outro, na relação. Existe essa multiplicidade de determinações, de raça, de classe, de religião, nacionalidade e etc. Mas não é sobre isso que quero falar agora.
No processo de nos tornarmos homens e mulheres assumimos papéis. É como se dentro de uma comunidade de homens houvesse vários papéis, assim como entre as mulheres. Provavelmente com muitas diferenças entre a estrutura de cada gênero mas também semelhanças. Entre os homens existe claramente uma escala de virilidade, de agressividade, de coragem, de força, liderança, etc. Isso muitas vezes está associado a quem é "mais ou menos homem", não esquecendo que sempre se faz isso comparando uns aos outros às mulheres e homossexuais (quem não é uma coisa, é outra, se não é homem é "o outro"). Ou seja, não existe um único papel masculino, apesar de entendermos em geral isso como uma escala. Mas a competitividade entre homens busca estabelecer uma hierarquia e exclui os "menos homens" ou se aproveita de sua submissão.
Sei que a psicanálise tem uma abordagem que leva em consideração a formação da identidade do indivíduo, levando em consideração uma multiplicidade maior sobre o gênero. Não sou capaz de aprofundar isso, ainda que me pareça um caminho produtivo para entender as questões que vivemos.
O crescimento da visibilidade de transgêneros deve abrir caminho para uma sensibilização neste sentido. Uma pessoa que se identifica com um gênero, tem uma sexualidade e assume papéis sociais e familiares, como variáveis independentes. Isso não significa que não vamos discutir o machismo mas que a diversidade com que se vivem essas relações pode ser muito mais ampla do que conhecíamos. Para alguns isso parece uma diluição e fuga, eu vejo como uma superação do moralismo de esquerda, que simplificou demais a vida achando ter solução para todas as questões, cheio de certezas e prejulgamentos, receituários...
Não esperem que eu diga que oprimidos e opressores estão em igualdade. O que existem são muito mais formas de opressão do que aquelas que conhecemos e sempre nos damos conta de outras ainda não perceptíveis para a maioria. Não podemos é ficar competindo para saber quem sofre mais ao invés de lutar por um mundo livre dessas correntes de opressão e exploração. Nem sempre somos capazes mas continuamos tentando sentir com e como o outro, ter identidade, ter empatia, solidariedade, companheirismo, cumplicidade.
Após concordar com minhas companheiras feministas, queria colocar algumas ideias que parecem polêmicas mas apontam para uma forma de ver mais profunda. E espero ter razão nisso. Quando nos socializamos como homens e mulheres, deixando de lado a questão da sexualidade, nos tornamos seres sociais. Ao mesmo tempo nos tornamos trabalhadores e burgueses, brasileiros, americanos, chineses e etc. Ou seja, nossa identidade se faz com o outro, na relação. Existe essa multiplicidade de determinações, de raça, de classe, de religião, nacionalidade e etc. Mas não é sobre isso que quero falar agora.
No processo de nos tornarmos homens e mulheres assumimos papéis. É como se dentro de uma comunidade de homens houvesse vários papéis, assim como entre as mulheres. Provavelmente com muitas diferenças entre a estrutura de cada gênero mas também semelhanças. Entre os homens existe claramente uma escala de virilidade, de agressividade, de coragem, de força, liderança, etc. Isso muitas vezes está associado a quem é "mais ou menos homem", não esquecendo que sempre se faz isso comparando uns aos outros às mulheres e homossexuais (quem não é uma coisa, é outra, se não é homem é "o outro"). Ou seja, não existe um único papel masculino, apesar de entendermos em geral isso como uma escala. Mas a competitividade entre homens busca estabelecer uma hierarquia e exclui os "menos homens" ou se aproveita de sua submissão.
Sei que a psicanálise tem uma abordagem que leva em consideração a formação da identidade do indivíduo, levando em consideração uma multiplicidade maior sobre o gênero. Não sou capaz de aprofundar isso, ainda que me pareça um caminho produtivo para entender as questões que vivemos.
O crescimento da visibilidade de transgêneros deve abrir caminho para uma sensibilização neste sentido. Uma pessoa que se identifica com um gênero, tem uma sexualidade e assume papéis sociais e familiares, como variáveis independentes. Isso não significa que não vamos discutir o machismo mas que a diversidade com que se vivem essas relações pode ser muito mais ampla do que conhecíamos. Para alguns isso parece uma diluição e fuga, eu vejo como uma superação do moralismo de esquerda, que simplificou demais a vida achando ter solução para todas as questões, cheio de certezas e prejulgamentos, receituários...
Não esperem que eu diga que oprimidos e opressores estão em igualdade. O que existem são muito mais formas de opressão do que aquelas que conhecemos e sempre nos damos conta de outras ainda não perceptíveis para a maioria. Não podemos é ficar competindo para saber quem sofre mais ao invés de lutar por um mundo livre dessas correntes de opressão e exploração. Nem sempre somos capazes mas continuamos tentando sentir com e como o outro, ter identidade, ter empatia, solidariedade, companheirismo, cumplicidade.
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