[mini ensaio] Da ortodoxia ao fundamentalismo
Irei começar este texto afirmando que considero, assim como fez Sartre, provavelmente o maior filósofo do século XX, que o marxismo é o pensamento mundial mais desenvolvido da humanidade para então criticar os equívocos de meus camaradas marxistas.
"Com frequência, tenho observado o seguinte: um argumento "antimarxista" não passa de um rejuvenescimento aparente de uma ideia pré-marxista. Uma pretensa "superação do marxismo limitar-se-á, na pior das hipóteses, a um retorno ao pré-marxismo e, na melhor, à descoberta de um pensamento já contido na filosofia que se quer superar." (Sartre em "Questão de método").
Isso é central e não uma introdução autoafirmativa, já que existe uma diferença entre o marxismo histórico e o marxismo contemporâneo, assim como entre a ortodoxia marxista e o fundamentalismo marxista. Se considero este como a filosofia que melhor compreendeu os antecessores e o mundo s partir deles, orto (reto) doxa (fé) seria percorrer o caminho para uma superação de nossas questões econômicas e políticas, incluindo a questão das opressões e da dominação ideológica, etc. Porém, não creio que os marxistas têm conseguido se elevar à altura de sua própria filosofia, por vezes buscam fazer isso reproduzindo de maneira mecânica os ensinamentos dos clássicos e, incapazes de fazer adaptações e inovações, congelam o que há de mais avançado nesse pensamento, matam sua dinâmica, sua força. E há algum tempo tenho pensado que há de existir fora do marxismo um pensamento digno de ser chamado revolucionário. E há! Segundo as palavras de Gramsci:
"Com frequência, tenho observado o seguinte: um argumento "antimarxista" não passa de um rejuvenescimento aparente de uma ideia pré-marxista. Uma pretensa "superação do marxismo limitar-se-á, na pior das hipóteses, a um retorno ao pré-marxismo e, na melhor, à descoberta de um pensamento já contido na filosofia que se quer superar." (Sartre em "Questão de método").
Isso é central e não uma introdução autoafirmativa, já que existe uma diferença entre o marxismo histórico e o marxismo contemporâneo, assim como entre a ortodoxia marxista e o fundamentalismo marxista. Se considero este como a filosofia que melhor compreendeu os antecessores e o mundo s partir deles, orto (reto) doxa (fé) seria percorrer o caminho para uma superação de nossas questões econômicas e políticas, incluindo a questão das opressões e da dominação ideológica, etc. Porém, não creio que os marxistas têm conseguido se elevar à altura de sua própria filosofia, por vezes buscam fazer isso reproduzindo de maneira mecânica os ensinamentos dos clássicos e, incapazes de fazer adaptações e inovações, congelam o que há de mais avançado nesse pensamento, matam sua dinâmica, sua força. E há algum tempo tenho pensado que há de existir fora do marxismo um pensamento digno de ser chamado revolucionário. E há! Segundo as palavras de Gramsci:
"Quando a concepção do mundo não é crítica e
coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente
a uma multiciplidade de homens-massa, nossa própria personalidade
é composta de uma maneira bizarra: nela se encontram
elementos dos homens das cavernas e princípios das ciências mais
modernas e progressistas; preconceitos de todas as fases históricas
passadas, mesquinhamente regionais, e intuições de uma futura filosofia
que será própria do gênero humano mundialmente unificado.
Criticar a própria concepção do mundo, portanto, significa
torná-la unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo
pensamento mundial mais desenvolvido." (Caderno 11. Cadernos do Cárcere).
Acredito, neste sentido, que os marxistas são muitas vezes mais atrasados que grande parte da sociedade pois apresentam um pensamento bizarro, não coerente e pouco crítico, incapaz de cumprir sua missão histórica revolucionária. E outros grupos se apresentam como detentores de um bom-senso, capazes de elevar o nível do pensamento marxista por saber intuitivamente ou através de outras tradições, populares ou teóricas e filosóficas, o "bom caminho a se tomar". É isso que os próprios marxistas chamam de sujeito histórico, a capacidade que a classe trabalhadora (pensada abstratamente mas que tem uma materialidade) tem de criar um mundo novo. Ocorre que no afã de ser a vanguarda política do processo os marxistas vão parar com frequência na retaguarda.
Para além das outras contribuições históricas e filosóficas, culturais de povos não europeus, da própria classe trabalhadora, reproduzidas no subterrâneos da história - o que é fascinante a meu ver, do coletivismo e da solidariedade herdados de tempos imemoriais - existe a própria contribuição de Marx diluída no tempo e no desenvolvimento científico e técnico do mundo contemporâneo.
Apesar de ser considerado por não marxistas e por conservadores pouco eruditos um filósofo superado, este mantém sua vitalidade nos meios intelectuais e não só, na militância política, nos sindicatos e movimentos sociais pelo mundo. É claro que essa vitalidade é, ao mesmo tempo, dada não pela sua própria força mas pela combinação com outros pensamentos contraditórios, liberais e reformistas no geral. Isso é a maneira bizarra de que Gramsci fala, que nos faz uma multiplicidade de homens-massa. Contudo, o que me interessa aqui é que desde que surgiu se expandiu com uma força incrível nos debates filosóficos e nas nascentes ciências sociais, na economia (com quem dialogou diretamente através dos economistas clássicos), na política, na antropologia (pouco desenvolvido neste aspecto, até onde pude conhecer), sendo influente ainda na psicologia, na pedagogia e linguística. Provavelmente esqueci de alguma área mas a intenção não é fazer uma discussão erudita e de difícil compreensão e sim lembrar que muitos dos autores contemporâneos possuem influência ou desenvolvem temas que são de extrema relevância para desenvolver o pensamento marxista mas nem sempre têm boa receptividade por parte dos ortodoxos, quem deveriam melhor interpretar o mundo. Neste ponto, provavelmente pela insensibilidade ou incapacidade, nos tornamos muitas vezes fundamentalistas, perdemos a dinâmica que o método dialético tem para "inverter" a situação. Aí, como ensina a geometria, só resta a forma circular, da repetição, monótona, irredutível e estável.
Se estamos na condição de multiplicidade de homens-massa e não conformados em um sujeito unitário e coerente - detentores do pensamento mundial mais desenvolvido - temos que reconhecer a verdade do mundo fora daqueles que a princípio não são revolucionários. E por vezes é nosso inimigo que traz as novidades para nós, somos pegos de surpresa pela ideologia dominante com criações que lhes confere uma aparência revolucionária, tão necessária para ganhar a confiança das massas no capitalismo e no bom caminho para o futuro. Não reconhecer essa condição é afirmar de forma pré-potente e ineficaz, portanto, que ainda não somos capazes de revolucionar o mundo. Essa prepotência nos leva a uma posição de auto-afirmação e de fundamentalistas de uma fórmula pronta própria do sujeito bizarro que deveríamos criticar. O caminho a percorrer é justamente criticar algumas certezas e tabus que nos parecem pilares do nosso pensamento mas que nada mais é do que pilar da ideologia dominante, crença e misticismo de nossa maneira desagregada e ocasional. O grupo revolucionário nessa situação não passa de mais um grupo, como o religioso, para a prática de esportes ou o grupo de trabalho. E cada grupo cria sua própria dinâmica de manutenção do poder interno, sua estabilidade, quando se torna uma organização e se institucionaliza. A rigidez no trato com os grupos externos, na relação com a inteligência que está fora de si, leva a uma série de arbitrariedades e disputas sem sentido. A falta de clareza no caminho a ser percorrido ou a certeza muito apegada a um caminho já definido pode levar todo um grupo que compartilha valores e ideias a caminhar em círculo. Obviamente que todo grupo está sujeito a um ciclo, à mudanças que fogem do seu controle, inclusive. Mas o ciclo de reconstrução do marxismo como pensamento mundial mais
desenvolvido parece longo demais. E cabe a nós, marxistas, sair desse buraco juntamente com o sujeito histórico que faz dessa filosofia tão grande.
Como não é toda a classe trabalhadora, senão uma minoria que se identifica com o marxismo, aos marxistas cabe o papel de repensar suas relações com os outros grupos, também multiplicidade de homens-massa. Estar com a classe trabalhadora nos locais de trabalho é essencial. Contudo, como planejar essa intervenção? Primeiro, é preciso considerar que a classe trabalhadora como conceito e como força social real são coisas diferentes. No primeiro caso é uma abstração que fazemos para entender a realidade da classe, não evidente e não manifesta a todo tempo. As variações de consciência dessa classe em seu estado de fragmentação, das categorias, de gêneros, etnias, dos níveis salariais e de vida, de especialização, região, cultura, etc., nos obrigam a pensar uma quase infinidade de intervenções. A grandeza da tarefa poderá ser realizada um dia e seria impossível prever como e de que modo. Mas diante de um estado de organização débil e cheio de contradições, de um nível teórico e político insuficiente, temos que considerar um elevado grau de participação da intuição e improvisação nesse processo. E diante disso, muitos marxistas consideram ser tal postura uma rendição diante do amadorismo e do individualismo. Aliás, Lenin, que foi um grande marxista, já superou essa questão quando formulou e organizou o partido comunista e a revolução na Rússia. E nesse ponto, Lenin é muito mais conhecido que Rosa Luxemburgo. Não entrarei nesse debate específico agora, que seria longo e é muito importante para entrar lateralmente aqui. O importante agora é que submetemos as inúmeras avaliações necessárias para os inúmeros desafios cotidianos com os grupos não-marxistas e não-comunistas às formulas e resoluções, deliberações, decisões formais. Deixamos de exercitar nossa capacidade de avaliação e planejamento, elaboração, organização, para alienar o sujeito numa entidade abstrata: direção, partido, sindicato, no responsável, no líder, no teórico, etc. E esses muitas vezes respondem o que podem e não o que precisamos, estão muitas vezes aquém das nossas necessidades e não nos levantamos para elevar as condições mas referendamos a mediocridade de nossa bizarrice.
Se o método dialético é composto pela contradição, a estabilidade de nossa própria organização pode ser nossa inimiga. Se ortodoxo é caminhar torto, surpreender e ser surpreendido, não formalizar e sim permitir a inovação própria da arte, subverter. A retidão "ortodoxa" marxista só pode se tornar fundamentalismo e religião, alienação, ópio para nossos sentidos.
"É por isso que a lei formal mais profunda do ensaio é a heresia. Apenas a infração à ortodoxia do pensamento torna visível, na coisa, aquilo que a finalidade objetiva da ortodoxia procurava, secretamente, manter invisível". (Adorno, em "O ensaio como forma").
Se estamos na condição de multiplicidade de homens-massa e não conformados em um sujeito unitário e coerente - detentores do pensamento mundial mais desenvolvido - temos que reconhecer a verdade do mundo fora daqueles que a princípio não são revolucionários. E por vezes é nosso inimigo que traz as novidades para nós, somos pegos de surpresa pela ideologia dominante com criações que lhes confere uma aparência revolucionária, tão necessária para ganhar a confiança das massas no capitalismo e no bom caminho para o futuro. Não reconhecer essa condição é afirmar de forma pré-potente e ineficaz, portanto, que ainda não somos capazes de revolucionar o mundo. Essa prepotência nos leva a uma posição de auto-afirmação e de fundamentalistas de uma fórmula pronta própria do sujeito bizarro que deveríamos criticar. O caminho a percorrer é justamente criticar algumas certezas e tabus que nos parecem pilares do nosso pensamento mas que nada mais é do que pilar da ideologia dominante, crença e misticismo de nossa maneira desagregada e ocasional. O grupo revolucionário nessa situação não passa de mais um grupo, como o religioso, para a prática de esportes ou o grupo de trabalho. E cada grupo cria sua própria dinâmica de manutenção do poder interno, sua estabilidade, quando se torna uma organização e se institucionaliza. A rigidez no trato com os grupos externos, na relação com a inteligência que está fora de si, leva a uma série de arbitrariedades e disputas sem sentido. A falta de clareza no caminho a ser percorrido ou a certeza muito apegada a um caminho já definido pode levar todo um grupo que compartilha valores e ideias a caminhar em círculo. Obviamente que todo grupo está sujeito a um ciclo, à mudanças que fogem do seu controle, inclusive. Mas o ciclo de reconstrução do marxismo como pensamento mundial mais
Como não é toda a classe trabalhadora, senão uma minoria que se identifica com o marxismo, aos marxistas cabe o papel de repensar suas relações com os outros grupos, também multiplicidade de homens-massa. Estar com a classe trabalhadora nos locais de trabalho é essencial. Contudo, como planejar essa intervenção? Primeiro, é preciso considerar que a classe trabalhadora como conceito e como força social real são coisas diferentes. No primeiro caso é uma abstração que fazemos para entender a realidade da classe, não evidente e não manifesta a todo tempo. As variações de consciência dessa classe em seu estado de fragmentação, das categorias, de gêneros, etnias, dos níveis salariais e de vida, de especialização, região, cultura, etc., nos obrigam a pensar uma quase infinidade de intervenções. A grandeza da tarefa poderá ser realizada um dia e seria impossível prever como e de que modo. Mas diante de um estado de organização débil e cheio de contradições, de um nível teórico e político insuficiente, temos que considerar um elevado grau de participação da intuição e improvisação nesse processo. E diante disso, muitos marxistas consideram ser tal postura uma rendição diante do amadorismo e do individualismo. Aliás, Lenin, que foi um grande marxista, já superou essa questão quando formulou e organizou o partido comunista e a revolução na Rússia. E nesse ponto, Lenin é muito mais conhecido que Rosa Luxemburgo. Não entrarei nesse debate específico agora, que seria longo e é muito importante para entrar lateralmente aqui. O importante agora é que submetemos as inúmeras avaliações necessárias para os inúmeros desafios cotidianos com os grupos não-marxistas e não-comunistas às formulas e resoluções, deliberações, decisões formais. Deixamos de exercitar nossa capacidade de avaliação e planejamento, elaboração, organização, para alienar o sujeito numa entidade abstrata: direção, partido, sindicato, no responsável, no líder, no teórico, etc. E esses muitas vezes respondem o que podem e não o que precisamos, estão muitas vezes aquém das nossas necessidades e não nos levantamos para elevar as condições mas referendamos a mediocridade de nossa bizarrice.
Se o método dialético é composto pela contradição, a estabilidade de nossa própria organização pode ser nossa inimiga. Se ortodoxo é caminhar torto, surpreender e ser surpreendido, não formalizar e sim permitir a inovação própria da arte, subverter. A retidão "ortodoxa" marxista só pode se tornar fundamentalismo e religião, alienação, ópio para nossos sentidos.
"É por isso que a lei formal mais profunda do ensaio é a heresia. Apenas a infração à ortodoxia do pensamento torna visível, na coisa, aquilo que a finalidade objetiva da ortodoxia procurava, secretamente, manter invisível". (Adorno, em "O ensaio como forma").
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