[mirco ensaio] Ex-nobe

Os costumes da nobreza, a cordialidade, a côrte, a polidez e elegância são traços de uma classe social que busca justificar sua superioridade hereditária no comportamento, na sua essência, no sentimento. 
A imitação destas características pela nova classe dominante são, na verdade, uma reprodução superficial da elegância, da superioridade de espírito e cultural. A burguesia é uma classe que busca se elevar socialmente mas a relação social que a envolve é mediada pelo interesse material e pela racionalidade, essencialmente econômica, diminuindo a importância das questões espirituais, filosóficas e culturais. Essas questões somente são importantes se tiverem uma utilidade, se estiverem relacionadas a um ganho. Esse ganho pode ser econômico, como é essencialmente, mas também pode ser de poder político, status e prestígio. O utilitarismo do período burguês reduziu a relação com Deus e a magia à ciência, o que foi elogiado por Marx. Mas também reduziu a relação humana ao comércio e à produção de maneira cada vez mais fria e calculista. O oportunismo que os comunistas identificaram na social democracia é, neste sentido, uma cultura burguesa que foi identificada no seio da luta dos trabalhadores, infiltrada na classe revolucionária em praticamente todos os momentos de sua vida. Claro, essa vida é produto da sociedade burguesa.
Uma compreensão profunda dessa cultura somente pode se concentrar na diferença clara com uma cultura anterior, radicalmente oposta, da nobreza. E pode ser o exercício que permite olhar para a nova cultura a ser produzida pelos trabalhadores, não interessada, essencial e não superficial, sublime. Essa espécie de romantismo pode parecer religioso ou idealista. Contudo, isso não suprime a evidente característica inicial do movimento comunista, econômica, no interesse da classe trabalhadora, utilitarista, no sentido estratégico da luta, superficial por dar extrema prioridade as questões econômicas. A super-estrutura da nova sociedade ou do estado de transição está em estado germinal e por isso confundimos o que é adaga e o que é punho. O risco é nos parecermos e sermos como aqueles que queremos destruir. Ou alimentamos uma ilusão ou nos fagocitamos.

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