[crônica] Teste de vacina - lote x
Estamos diante de uma grave crise e a ansiedade nos consome. Penso que este estado de agitação é como um instinto corporal para que estejamos preparados para uma reação imediata, para nos defender de alguma ameaça ou porque sabemos que precisamos agir de alguma maneira. A mudança radical nos nossos hábitos, a interrupção do trabalho repentinamente. Justamente esta atividade que não pode nunca parar, mesmo diante de tantos motivos para parar e de tantas tentativas de greves para melhoria da vida. Não, hoje o trabalho pára por necessidade....do Capital. Se ele não parar, a crise vai ser maior e os riscos de explosão social serão incontroláveis. Agora já não são propriamente controláveis, uma vez que a situação daqueles que são "autônomos" é de profunda dependência dos consumidores e os efeitos econômicos serão catastróficos. Os comerciantes, como os "autônomos" ou "empreendedores" sofrem a agonia de ver os prejuízos aumentarem. E não existe acordo social que garanta o bem-estar e a sobrevivência econômica de todos, a incerteza é o mais certo pra hoje. Ainda que a riqueza esteja longe de acabar, sentimos a agonia de que a nossa reserva particular está acabando. E a agonia de ver que o nosso modo de vida, que parecia tão certo e seguro, é demasiado frágil e sofre um ataque invisível internacionalmente, retorna. São muitos dias pra esquecer. E ainda nem entramos na pior fase. A pior fase é a "escolha de Sofia" - ironicamente a escolha da sabedoria é quando já não podemos escolher entre todos... é a escolha que coloca o indivíduo em crise, todas as certezas vão desmoronar e os profissionais da saúde irão ver isso de perto por lidar diretamente com a morte.
Como fomos criados para obedecer, ou melhor, para sermos empreendedores, pró-ativos, responsáveis... mas apenas com nós mesmos, não sabemos como lidar com a responsabilidade social. Como fomos engambelados pelos liberais, aceitamos que não existe escolha coletiva que leva à liberdade. Forma-se o efeito manada do gado ferido, assustado, lutando pela sobrevivência. Tanta ciência para uma reação tão irracional. E há quem responsabilize a natureza humana por essa situação, incorrigivelmente egoísta e passional dizem eles. Então nos vemos em um filme de nós mesmos em que estamos num personagem e ficamos confusos com a nossa capacidade de ação, não sabemos se realmente somos sujeitos ou estamos interpretando. Parece que muito disso é inevitável. E realmente é, estamos pagando o preço da alienação e do feitiço da mercadoria, do feitiço que virou contra o feiticeiro e nos governa como se não fossemos nós os criadores dele. Muito disso vai acontecer sem que possamos reverter. Mas a crise pandemônica do capitalismo nos mostra a cada dia que apesar de um presidente estúpido que diz que a crise é grave mas aperta a mão das pessoas, de um ministro da saúde que não ouve as orientações de sua própria equipe sobre o uso de máscaras, vemos que as pequenas ações....aquelas sem holofote, serão decisivas para a diminuição ou não do contágio. Os pequenos sujeitos poderão novamente perceber que eles são personagens e diretores do filme de suas próprias vidas. E que o mito do grande herói é mais uma distração que nos escraviza.
E ao invés de sermos teleguiados para o final feliz, teremos que nos recuperar da alta dose de feitiço que ainda nos guia para colocar nos eixos o mundo que construímos. Ainda que muitos aceitem seus papéis, é novamente e cada vez mais uma questão de sobrevivência e felicidade. É necessário e por isso faremos.


Este momento que vivemos..é triste..e é justamente o que você falou, " a crise pandemônica do capitalismo" .. nos faz repensar muito. Adorei seu texto!
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