[crônica] Sobre parasitas, vida e valor

Uma das coisas mais curiosas dos últimos dias é o reconhecimento público e histérico de que a economia precisa de trabalhadores. Parece uma coisa óbvia, contudo, cotidianamente, sem uma pandemia para que as pessoas falem abertamente, o teatro do mundo oculta a importância daquele que executa as tarefas atrás daquele que dirige o processo de trabalho. Assim, o trabalhador que obedece aceita baixos salários, humilhações, ameaças de desemprego, assédio moral e etc. Soma-se a isso a visão de quem obedece como inferior, quase um animal, ensinando às crianças na escola que elas devem estudar pra "ser alguém na vida". Pois é, isso ficou um pouco mais complicado justamente no momento em que a humanidade se vê bagunçada por uma pandemia. 
O risco de transmissão para toda a sociedade envolve os setores médios e até da classe dominante, que só pode diminuir o perigo evitando o contato, as aglomerações, o transporte e o trabalho. E então quem aparece? O trabalhador, que não é ninguém, se torna visível quando ele precisa agir para impedir a transmissão do vírus e, principalmente, quando... não trabalha. Quem diria que uma "greve" forçada, pela saúde, para evitar as mortes em todas as classes sociais, iria mostrar o valor do trabalho. E, consequentemente, vemos as pessoas discutindo a importância e o valor das vidas diante do prejuízo dos capitalistas que começam a ver que muitos vão cair, virar também trabalhadores. E querem ser salvos por aqueles que até então desprezavam. Que coisa, parece que momentaneamente vemos o valor das vidas humanas em um mesmo nível e aqueles que não enxergam sua própria animalidade, a barbárie, deixam suas máscaras caírem e mostram a face horrenda do parasita.

NETO DESTRO VÓ CANHOTA: Invisíveis
Charge de João da Silva (João Miséria)

Comentários

  1. Pois e, a pandemia veio mostrar q precisamos uns dos outros, independente de sermos ricos ou pobres, de credos diferentes, raças. Todos nos precisamos do trabalho p podermos viver, sobreviver.
    Se os agricultores não trabalharem, não teremos comida.
    Se os transportadores e os que produzem o combustivel para o tranporte nao trabalharem, os alimentos não chegam ate nos.
    Se os médicos, enfermeiros, faxineiros e outros trabalhadores dos hospitais não trabalharem, morreremos.
    Se as farmácias não trabalharem, não teremos remédio para nos cuidar.
    E assim, vemos o quão pequenos somos, neste universo tão imenso!

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