[crônica] O decalque da guerra ou vou falar de "coronga" de novo
Como que fazendo um raio-x, analisando a profundidade do espírito dos povos vemos os nomes pelos quais estes chamam o cenário natural a seu redor. A língua guarda segredos que as especialidades científicas demoram muito a descobrir. Por isso hoje resolvi falar do menino Wesley, de 14 anos, que trocou o nome do "coronga" vírus propositalmente, creio eu, porque trocar as palavras é um meio de ele fingir que não sabe do que tá falando. Como quem ta acostumado a ouvir: você sabe com quem você ta falando? É o decalque da guerra. Passando uma vista no que o oráculo moderno tem a dizer, encontro um artigo de José de Souza Martins, de 2003, que me remete à língua brasileira proibida, o Nheengatu ou língua geral.
Se pensar bem, o que aparenta ser um problema de dicção é toda uma linguagem que se recusa a aceitar a norma padrão, ainda que também seja expulsa de uma norma que não pára de se modificar deixando sempre pra trás quem não deve ser proprietário da própria língua. É o decalque da exploração, o assalariado só aceita sua condição por não ter outra saída.
O dialeto dos caipiras guarda os segredos da perseguição e da pilhagem, da destruição da confiança daqueles que erguem cada tijolo de nosso mundo. Mas sua língua sobrevive, em ruínas, sempre margeando o poder, gingando malandramente no falar pra não apanhar de sinhô, de gambé ou comédia, parasita...
É como o come quieto do mineiro, a dança-luta capoeira, tiririca em São Paulo, ambas nome de mato rasteiro mas que se espalha que nem praga, se derruba e se levanta, enraíza.
O falar desse povo, que não é só povo ou é mais classe que povo, ta se guardando pra quando o carnaval chegar, não pode nomear, não quer se afirmar, se assumir... não por inteiro! Ainda não, segura, segura, bambeia mas não cai!
Artigo do José de Souza Martins no link: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2007200309.htm
Artigo do José de Souza Martins no link: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2007200309.htm
Como disse o poeta: de tudo fica um pouco. Um pouco da fala, do rosto e dos gostos e desgostos desse lugar de nome de pau, brasil!
ResponderExcluirBoa Plínio!
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