[mini ensaio] Sobre abusos e ressentimentos

Parece não termos como escapar dessa malha de relações em que uns desconfiam dos outros, no seu círculo mais íntimo, na sua própria família, entre seus melhores amigos. Que mundo herdamos e que mundo criamos para nós e outros amanhã, jovens que serão como os pais, com os mesmos ídolos, ainda que travestidos de outra forma! Se houve um tipo de sociedade que as coisas se descobriam devagar, no seu tempo, de forma espontânea e intensa... Será que a velha comunidade tinha dessas coisas? Um velho homem que se sentiu humilhado pelos próprios parentes, por ter um pai viciado que batia na mãe, que construiu sua vida nessa busca por comprovar sua honra, sua capacidade, seu merecimento. Um outro que concorre com seu amigo para comprovar sua virilidade, para mostrar que é desejado, numa batalha pessoal com aquele que admira. Uma mulher que concorre por ser reconhecida, lutando contra todo um velho mundo, preparada para as melhores respostas mas usando uma pena e um tinteiro, escrevendo em hebraico, reconstruindo o mundo que quer destruir. Um jovem que, depois de abusado por um vizinho, se torna um sedutor com medo da passividade, do domínio, do abuso, considera sem perceber que a relação humana é sempre dominadora. Tantas histórias, tantos abusos, injustiças, humilhações e ressentimentos. O ódio que fica, se cristaliza, se torna um diamante inquebrável, e em cima dele as pessoas tem construído sua identidade e sua vida. Uma vida que mais parece uma obra de arte, uma obra-resposta, sem que tenhamos conta disso, tudo como um grande espetáculo combinado de pequenas tragédias. E, poderia sê-lo, se não fosse completamente inconsciente, se não fosse fratricida, se não fosse estúpido, se não produzisse mais ressentimento e ódio. 
Sobre o ódio, não é de todo mal. Eu acho que é ele que irá nos liberar desse liberalismo pacifista, hipócrita, que nos aprisiona em nós mesmos, individualmente frustrados. Sem nunca reconhecer, é claro! Mas não o ódio homofóbico, pra citar apenas um exemplo: se existe alguma relação entre a homossexualidade e o abuso, talvez seja consequência da escuridão do armário. Diante de tanto ódio fragmentado, não poderia sair nada de bom realmente. E unificado tampouco seria uma garantia. Porém não há como negar que o ódio e a violência são uma grande fonte de energia e com eles se move a grande engrenagem da história, enferrujada nessa mediocridade contemporânea. 

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