[crônica] Meu senso-comum, meu ódio
Eis que nos deparamos com a questão da repressão policial tão exaltada por Jair Bolsonaro. Estou trabalhando, vou embora mas volto para ir ao banheiro. Logo me deparo com a falta do meu capacete, que vai ser pago no cartão de crédito durante 3 meses. Como qualquer trabalhador, individualizado no dia a dia das dificuldades, do espremido salário e das contas para pagar. Como um burguês que administra a sua empresa, tem receitas e despesas. Mais um roubo. Como aqueles que aparece todos os dias no jornal de milhões. Neste caso são 96 reais contidos numa mercadoria, mais um pequeno furto. Daqueles furtos cotidianos que todos conhecem no seu dia a dia em uma grande cidade. Tenho vontade logo de associar esse fato àqueles que eu sei que não trabalham, o "vagabundo", o ladrão, o traficante. Como qualquer trabalhador que sonha em sair do sufoco, que se espelha no burguês com seu carro novo, que sonha em sair do ônibus lotado, para pegar o trânsito do fim de expediente, ao lado do Pequeno Burguês. Nesse momento o discurso de ódio contra a bandidagem toma conta de grande parte dos trabalhadores, guiado por esse sentimento pequeno-burguês: subir na vida, trocar de classe.
Como não ser envolvido por essa conversa, como não ter ódio de um oportunista que acabou com minha tarde de sexta-feira, se não consigo enxergar nada além de gente que trabalha, honesta, e ladrão. Eu que já me acostumei com um ambiente de trabalho hipócrita, sem compromisso de classe, preconceituoso, bolsonarista, de quem tanto me aproximei agora. De fato me desagradam os nóias e oportunistas da quebrada. Não tem como não ser levado a acreditar que se não fosse por eles minha vida agora seria menos desgraçada. Talvez eu fosse menos pobre mas seria ainda assim um trabalhador. Não estaria preso no trânsito e molhado de chuva de volta ao trabalho, onde vou devolver um capacete emprestado. Em plena sexta-feira.
Queria usar meu ódio contra a mafia e os interesses burgueses que controlam a educação e o meu trabalho, contra a máfia e os interesses burgueses que controlam o transporte e meu tempo perdido. Queria usar meu ódio contra toda a burguesia! Mas eu não posso, não posso sozinho. Como muitos, às vezes admiro mesmo são os terroristas. E fico pensando, não será somente eu que sinto ódio: o que fariam tantos outros trabalhadores que sentem ódio diante de tantos ataques, de tanta necessidade, de tanta miséria humana, diante da barbárie, do assédio cotidiano, da desmoralização em benefício do chefe ou patrão. Pediremos a cabeça do vagabundo mas não de nossos verdadeiros algozes?
Como não ser envolvido por essa conversa, como não ter ódio de um oportunista que acabou com minha tarde de sexta-feira, se não consigo enxergar nada além de gente que trabalha, honesta, e ladrão. Eu que já me acostumei com um ambiente de trabalho hipócrita, sem compromisso de classe, preconceituoso, bolsonarista, de quem tanto me aproximei agora. De fato me desagradam os nóias e oportunistas da quebrada. Não tem como não ser levado a acreditar que se não fosse por eles minha vida agora seria menos desgraçada. Talvez eu fosse menos pobre mas seria ainda assim um trabalhador. Não estaria preso no trânsito e molhado de chuva de volta ao trabalho, onde vou devolver um capacete emprestado. Em plena sexta-feira.
Queria usar meu ódio contra a mafia e os interesses burgueses que controlam a educação e o meu trabalho, contra a máfia e os interesses burgueses que controlam o transporte e meu tempo perdido. Queria usar meu ódio contra toda a burguesia! Mas eu não posso, não posso sozinho. Como muitos, às vezes admiro mesmo são os terroristas. E fico pensando, não será somente eu que sinto ódio: o que fariam tantos outros trabalhadores que sentem ódio diante de tantos ataques, de tanta necessidade, de tanta miséria humana, diante da barbárie, do assédio cotidiano, da desmoralização em benefício do chefe ou patrão. Pediremos a cabeça do vagabundo mas não de nossos verdadeiros algozes?
Mas para quem se lembra do capacete emprestado, vou devolvê-lo. De volta à escola. Se tem alguma coisa boa nessa história foi a solidariedade da cozinheira, dona do capacete, que ainda me guardou uma janta. E pensar que tem trabalhador que defende a terceirização, quanto ódio fratricida.
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