[crítica] Novelas e ideologia (1)
O outro lado do paraíso
Aquilo que poderia ser o inferno, será mesmo o próprio paraíso? Vingança, duas mulheres separadas de suas famílias. Ambas do Tocantins, é a vez do estado mais novo do Brasil, criado na ditadura. Uma, de origem simples e casada com um diplomata, desprezada pelo sogro aristocrata por sua origem de classe. Outra, camponesa, herdeira de uma terra com esmeraldas, que se apaixonou por um jovem burguês de Palmas, foi estuprada no dia do casamento e agredida fisicamente pelo mesmo desde então. Esta última é a protagonista do inferno (ou seria o lado obscuro do paraíso?). A sogra ambiciona sua jazida de esmeralda e a cunhada seu filho recém-nascido, motivo que as levaram a criar um meio de internar a personagem Clara num hospício por 10 anos. Ela é a vingança e a sede pela apropriação da cria (criação/riqueza produzida) da classe operária contra a burguesia e o patriarcado. Ela quer se vingar da sogra, e todos que a ajudaram a persegui-la. Mais produção da Globo reforça a estratégia democrática-popular que se tornou ideologia dominante na indústria cultural nacional. Os aliados de Clara são um advogado, sobrinho de outra mulher injustamente perseguida e internada no hospicio, e um médico que era apaixonado por ela antes de seu casamento. Soma-se a eles uma juíza negra e um delegado, separados pelo preconceito racial da família dele. Contra um delegado e um juiz corruptos, este último pai do delegado honesto, além de um psiquiatra que esconde sua intimidade homsexual. A sogra de Clara (Sofia) comprou os dois primeiros e chantageou o último com a exposição sua secreta vida homossexual com o motorista dela. Clara que era uma moça doce e inocente antes, se torna vingativa e fria, cujo coração está fechado para se apaixonar novamente. A novela caminha para a conscientização de que o outro lado do paraíso pode ser a obscuridade de uma moça pura, perseguida injustamente em nome da ambição, do machismo e da inveja, a Clara. E a falsa sabedoria de uma mulher hábil e sagaz que faz de tudo pra ter poder e dinheiro, a Sofia. Mas provavelmente uma e outra tenham um desfecho que reforcem o branco e o azul do paraíso, a paz e a esperança. Contra o vermelho do inferno, do ódio e da vingança. O que vale do vermelho é o rosa do amor dócil, dirão. Clara voltará a seu estado natural de amabilidade e doçura, abrindo mão de seu ressentimento e sentimento de vingança para amar novamente. Sofia será desmascarada e punida, provavelmente nem seja digna de usar o nome da sabedoria. E novamente se renovam os laços da democracia como um compromisso dos trabalhadores com os seus patrões, um espírito de perdão que sustenta todo o atual estado de passividade, a ideologia necessária para a atual conjuntura. E isso sem perdoar os racistas, os homofóbicos, machistas, gananciosos desonestos e corruptos (sem falar do combate ao preconceito contra os anões e com as prostitutas, humanizando outros personagens e fugindo de esteriótipos fáceis). Tenho gostado muito do clímax dessas novelas, quando pensamos que o conflito irá se instaurar e a justiça será feita. Mas a Globo não pode ir além de si mesma, sua justiça é fria e calculada, democrática, racional e tolerante com a sociedade de classes. Afinal, a ideologia dominante pensa que está é a única forma de vida possível. Não é difícil convence-los, ou melhor, é uma justificativa, uma narrativa que agrada a nossa percepção do mundo. Nos aprisiona na tensão bem representada no dia a dia e nos conduz como crianças para o grande final, burocrático mas também popular e democrático. O mundo burguês permanece sendo o grande exemplo civilizatório.
Comentários
Postar um comentário