[mini ensaio] Por um novíssimo ensino médio

Eis um problema epistemológico e metodológico da escola, da atividade docente. Diante da incompletude da ciência, o professor encontra na sala de aula dilemas diante dos seus alunos que se referem aos dilemas da própria ciência incompleta, imperfeita e incompetente. O professor pode se fechar numa Torre de Marfim pretensiosamente seguro de seu conhecimento científico. Mas essa torre só existe nas mentes humanas mais vulgares. Qualquer exame mais profundo irá nos colocar diante de debates teóricos, de questões ainda não resolvidas pela ciência. Afirmar que essas questões estão resolvidas pode apenas ser uma solução provisória para o objetivo didático imediato mas a reação dos alunos diante de tais afirmações, de tal conhecimento, revela a capacidade cognitiva e a desconfiança do sujeito que recebe esse conhecimento pretensiosamente verdadeiro. Isso obriga o professor a estudar constantemente a se aprofundar como um cientista em sua área. Primeiro, para não afirmar dogmas e fazer da escola uma igreja positivista, ao invés de um lugar da ciência. Segundo, porque se insistirmos nessa divisão do trabalho em que o pesquisador ou cientista desenvolve as questões do conhecimento humano mais avançado, enquanto o professor ensina as bases desse conhecimento na escola para futuros profissionais e cidadãos comuns, não especializados, iremos não apenas frustrar nossos objetivos pedagógicos como também nossos objetivos políticos e sociais. O primeiro problema - de o professor se tornar um pregador de dogmas - é a base da separação do estado e da igreja, é justamente por considerarmos que a ciência não é uma religião é que o Estado cumpre seus objetivos sociais de mediação dos diversos interesses da sociedade. Essa é a base da transformação moderna que herdamos das revoluções burguesas e da teoria liberal. O segundo problema - da divisão do trabalho e as consequências pedagógicas, políticas e sociais - decorre do grau de desenvolvimento da sociedade capitalista, que precisa da escola para o desenvolvimento profissional e científico de seus cidadãos, mas ao mesmo tempo não absorve de maneira universal os trabalhadores inseridos universalmente no sistema de educação. Ou seja, ao mesmo tempo que a escola é uma instituição basilar da sociedade industrial e do desenvolvimento científico, do capitalismo, é também o espaço de alienação da classe trabalhadora. A divisão do trabalho entre o pesquisador e o professor do ensino básico é correspondente à divisão entre o trabalho intelectual e o trabalho manual. Mas como pode o trabalho do professor ser um trabalho manual? Pedagogicamente, o professor ensina conteúdos que podem estar sendo revistos pelas últimas pesquisas, podendo estar afirmando na sala de aula um conhecimento seguro que não passa de uma mentira bem formulada, ou se preferir, de ideologia. Aquele conhecimento que deveria estar preparando novos profissionais, especialistas ou cidadãos conscientes, se cristaliza como dogma, perde sua contrariedade. Política e socialmente, forma-se uma blindagem medíocre no entorno de conhecimentos falsos mas amplamente aceitos com verniz científico. Ou então tal blindagem é rompida pelos setores mais conservadores da sociedade que afirmam, com certa razão, que esse conhecimento pretensiosamente científico, essa busca racional por controlar a natureza, essa tentativa liberal de ir além da religião, de prescindir Deus, fracassou. Diante das tensões sociais que tal reconhecimento, tal crise científica, ideológica, que a sociedade apresenta é necessário empurrar a velha sociedade para sua própria transformação. Isso pode significar o desenvolvimento do sistema de ensino, que não pode acontecer sem a valorização dos professores e melhoria das condições de trabalho. Ou então iremos esperar um agravamento tão dramático do ensino que somente será possível uma transformação radical, ou seja, uma revolução. Por ora temos apenas mais reformas que prometem uma modernização mas que não atingem os verdadeiros sujeitos do processo educativo, os profissionais responsáveis pela direção e condução do ensino. Como na proposta do Governo Federal de Novo ensino médio, mais uma reforma que muda tudo para não mudar nada. Ou pior, os críticos religiosos que buscam censurar o ensino, negando aos jovens, futuros trabalhadores, o direito de conhecer as questões contemporâneas e as discussões científicas do mundo moderno. Apesar das aparências essa tensão só pode se resolver com a ampliação do conhecimento e da riqueza, como têm sido nos últimos séculos, como mostra a luta de classes e suas revoluções.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Entre rios - documentário

[crônica] O espelho e o ressentimento político em 2018

[micro ensaio] Inventário em movimento