[crítica] Novelas e ideologia
Costuma-se dizer que as novelas são instrumento de manipulação da massa. Esse discurso fez parte especialmente do repertório da esquerda nas últimas décadas, pelo menos das duas últimas. Ou seja, desde a redemocratização. Quando o aparato repressivo foi domesticado e iniciou-se a abertura política, a cultura precisava ser edificada em fundamentos democráticos dos quais fazem parte o PT de Lula e as novelas da Globo. E hoje esse discurso faz parte também do repertório da direita anti-liberal, eventualmente evangélica e/ou fascista.
Contudo, nessa cultura democrática que tardou anos para se consolidar não existe espaço para censura. A esquerda que demorou tanto tempo para chegar ao poder, levou até a política de Estado a voz do gênero, da raça e do orgulho LGBTT sob a bandeira popular e democrática. As cotas sociais em universidades chega até a considerar a "classe social" na compensação aos alunos da escola pública, mesmo depois do "golpe" de Temer. A Globo que sempre foi acusada de ser golpista e canalha pela vanguarda da esquerda se tornou a vanguarda dessas bandeiras, trouxe para o centro de seu conteúdo programático. E a vanguarda da esquerda se tornou sua retaguarda, ou melhor, seu traseiro (perdão da consideração machista, perdoe a liberdade poética). Aliás, o politicamente correto se tornou a moral dominante, que ameaça a espontaneidade do erro. Se não perdermos a atenção aqui, o politicamente correto me parece trazer a responsabilidade completa do mundo à conduta do indivíduo.
Retomando e concluindo, não são as novelas que manipulam a cultura e a ideologia do povo, incluindo a classe operária, mas o contrário. As novelas são a expressão de uma sensibilidade que se construiu no período democrático. E a esquerda fez parte desse processo como ingrediente principal. Não como diz a direita da conspiração, fez parte e não é o processo em si. Para o observador desavisado poderia ser que a história anda pra trás mas ela é realmente contraditória. E não é apenas um detalhe, o conservadorismo não é sujeito do processo e se fosse, seria do paraíso perdido e não do paraíso procurado. E pra quem gosta de final feliz, assistam as novelas da Globo, lá a história sempre acaba (e bem). É, a história acaba lá mesmo ou parece que acaba: idealista, inebriante, sublime.
Como colocou Ecléa Bosi em seu livro, "Cultura de massa e cultura popular", analisando a indústria cultural escrita:
Como colocou Ecléa Bosi em seu livro, "Cultura de massa e cultura popular", analisando a indústria cultural escrita:
"Os problemas e estereótipos da sociedade vêm povoar as histórias infantis e vice-versa, há uma alta dose de regressão infantil nas mensagens para adultos: pode-se dizer que a cultura de massa em seu setor infantil tende a acelerar a precocidade da criança de modo que esta fique apta o mais cedo possível a consumi-la em seu conjunto, ao passo que, no seu setor adulto, ela de põe a altura da criança."
Não precisamos resolver os problemas humanos, as novelas nos angústia e nos tranquiliza com a afirmação da ordem e sua capacidade de lidar com as mazelas humanas. E faz isso com criticidade, combatendo os preconceitos. Mas sem questionar os pilares da sociedade de clssses. Os trabalhadores que permaneçam como crianças, ou melhor ainda, a-sujeitados. A arte reproduzindo a vida.
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