[crônica] A desertificação de uma universidade

Quero tratar das mudanças de um lugar mas poderíamos falar da desertificação de qualquer floresta, com sua fauna e sua flora, de qualquer lugar em que a biodiversidade deu lugar a um deserto. Creio que aquele que ler este pequeno texto ira lembrar de uma decadência parecida. Há 10 anos atrás, quando cheguei em uma universidade estadual do interior do estado de São Paulo, para morar em um distrito pacato e arborizado, que cresce cada vez mais com seus condomínios e a urbanização, falava-se das mudanças que já haviam acontecido neste lugar. Entre um prédio e outro do instituto ciências humanas e historia, havia um senhor chamado Nilson, conhecido como Nilsão, que vendia discos, um intenso movimento de estudantes que discutiam cultura, filosofia, teorias social e historia, se divertiam e davam vida a um espaço de socialização raro em nossa sociedade. Este lugar e conhecido de fora como um lugar onde era liberado o uso da maconha. Mas esse mito clichê somente faz sentido para quem não conviveu neste espaço. Quando digo espaço, e porque vai alem do lugar, que continua ali (ou aqui), porem sem a mesma interação, os mesmos sujeitos, sem as mesmas condições. A forma e o conteúdo se alteraram. Curiosamente, como em qualquer lugar, as pedras e paredes não falam, mas alguns ainda guardam a memoria, cada um com um pedaço, de algo que já não existe. Em um certo tom saudosista poderíamos perguntar: e pra onde vamos? Digo, pra que espaço e pra que tempo?
Hoje, lembro de um ou dois detalhes que me contavam sobre as mudanças conhecidas por muitos que não acompanhei. Uma delas e que a universidade não era cercada e, outra, que se vendia cerveja dentro do campus. Desde que cheguei, a convivência me lembrava outro espaço universitário que tive o privilegio de desfrutar, também uma universidade publica mas esta federal. O que sempre me fez pensar na qualidade dos espaços públicos universitários em relação aos demais espaços que conheci. O intenso intercâmbio de saberes de muitas especialidades pode parecer uma coisa tediosa pra quem não viveu isso. Mas eramos jovens e muitos não tinham o peso do trabalho para consumir tanto tempo da vida. E alem disso, apesar de frequentemente nos referirmos ao contexto dele como que espaços fora da ''bolha'', sempre existiu uma troca com o mundo exterior que enriqueceu a todos. Não tome o leitor essa afirmação como uma idealização, é que a ideia de uma bolha sempre foi usada por quem vivia neste espaço numa especie de idealização contrario. Hoje vemos com mais clareza que o que parecia nos distanciar de tal maneira do mundo exterior era tao frágil que uma crise econômica foi suficiente para desmanchar no ar. 
A prova de que não e uma bolha e o fato de as mudanças que haviam ocorrido antes de eu chegar e as que ocorreram depois mostram que a universidade publica, e imagino que no seja apenas esta, sofreram muitas transformações, sendo que o convívio social em seu meio aquela que mais me impressiona. Os professores falavam a época que o instituto estava agonizando. Se isso era verdade, hoje ele esta morto (ou o que pode ser pior, agonizou todo esse tempo!). Nesta época, em que ocorria uma greve contra os ataques da reitoria e do governo, penduramos um caixão no meio do instituto, representando sua morte. O movimento estudantil discutia a importância das festas que a reitoria queria proibir, sempre fomos vistos como jovens irresponsáveis e fanfarrões. Hoje, com a visão que se fez da esquerda, como "revolucionários de Iphone". O leitor ou a leitora poderia pensar que é um absurdo defender a venda de cerveja no campus universitário. Mas esse processo é a desertificação de um espaço de cultura que deveria ser reproduzido e não extinto. Como deveria ser reproduzido o que uma figura carimbada que aqui permanece, sem nunca ter tido um vínculo formal com a universidade, um local ''estrangeiro dentro da bolha'', lembrou como o ''papinho do tripé universitário'' (o ensino, a pesquisa e a extensão). De fato, nunca se fez a tal extensão universitária, que deveria levar à sociedade os benefícios de tamanho investimento, conhecimento e cultura acumulados.  
Muito se falava também que o fim das cantinas acabariam com o convívio e estrangularia o melhor do espirito universitário. Enquanto isso a reitoria demolia as cantinas, proibia as festas e propunha o programa de segurança ''campus tranquilo''. De certo modo foi realmente um sucesso, virou um deserto onde nada mais acontece, não se vê pessoas, talvez estejam produzindo textos que não serão lidos, foram todos encapsulados em algum lugar, seriados. Penso que deveríamos resgatar os pequenos fragmentos dessa e de outras desertificações, pois este e o retrato da barbarização a que fomos submetidos, contrariamente a todas as expectativas que são contemporâneas de nosso processo de democratização pós ditadura. Agora o otimismo passou e essa cronica diz algo sobre a sociedade, nunca existiu uma bolha, foram as ilusões de um espaço e de um tempo que formou o que somos hoje. Este e outros quebra cabe;as precisarão ser montados para encontrarmos o fio da meada. 

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