[crítica] Análise do filme Pantera Negra


O filme, que traz o nome do movimento pela autodefesa dos negros norte-americanos nos anos 60 e 70, já anuncia no chamado um tema que causa curiosidade e intriga. Na minha ignorância eu imaginava que poderia tocar na questão da desigualdade racial e, como de costume, subestimei a habilidade e a sintonia do discurso político de uma grande indústria dos quadrinhos e dos filmes associados a estes, como subestimamos em geral qualquer indústria e seus discursos políticos, ainda mais a indústria cultural.
Neste, Wakanda, um país africano ultra desenvolvido que mantém sua vantagem tecnológica em segredo, já que o ocidente pensa ser apenas um país de terceiro mundo, rural e pobre, carrega contradições que não são privilégios seus. O país possui um minério com um potencial extremamente poderoso, o Vibranium, que lhes proporciona energia para medicina e indústria bélica muito além do que os EUA puderam criar até então. A obra coloca, assim, um país africano num lugar inesperado, para além dos estereótipos racistas de pobreza, fome e subdesenvolvimento. Essa bandeira da igualdade racial perpassa todo o filme, elevando o povo negro a uma condição de vanguarda tecnológica e social do planeta. A simbologia dos Panteras Negras busca honrar a luta pela igualdade no mundo, fazendo referência direta à luta pelos direitos civis nos EUA.
Existe um ambiente em Wakanda que parece apontar para uma sociedade mais justa, porém as cenas com ambulantes em uma espécie de mercado com altas tecnologias, no início e no fim do filme, reforçam a ideia de que este é um país capitalista como qualquer outro. Afinal, para os realizadores essa é a única realidade possível, dentro do ideário liberal de liberdade de iniciativa baseado na propriedade privada. E neste sentido, como qualquer país capitalista, possui suas contradições políticas. 
A primeira evidência disso aparece no início do filme com o encontro do protagonista (que será empossado Rei) com sua irmã mais nova, que é a "menina rebelde". No diálogo em questão ela expressa a posição de ajudar os negros de outros países com a tecnologia de Wakanda. Ela, que é a responsável pelas pesquisas e inovações tecnológicas do reino, quebrando mais um estereótipo, agora das mulheres, ligado às tarefas de cuidado e do lar. É uma mulher cientista e crítica com uma cultura jovem, roupas e costumes aparentemente adolescentes e uma posição de solidariedade internacional. 
Diversos membros de destaque em Wakanda são enviados a missões secretas pelo mundo para ajudar os povos negros a lutar pela igualdade, como que espiões da igualdade racial, contribuem discretamente na luta dos povos pela igualdade. Uma dessas missões havia enviado um dos herdeiros ao trono, o tio do protagonista, anos atrás, para Oakland, periferia dos EUA. Lá, diante da miséria e pobreza do povo negro, este passa a adotar uma ideologia de guerrear com a força da tecnologia de Wakanda para libertar seu povo do sofrimento. Neste momento aparece uma espécie de internacionalismo e de uma política radical que faz lembrar Malcom X - líder do movimento negro norte-americano que defende a auto-defesa contra o racismo da polícia do EUA. Este personagem, que também se envolve com uma mulher norte-americana e tem um filho, se desvia de sua missão e acaba assassinado pelo irmão, que se torna Rei e é o pai do protagonista. O filho do irmão assassinado possui informações sobre Wakanda e é um pária que lutará toda a vida para conhecer e triunfar sobre o país de seu pai. Essa batalha se dará entre ele e seu primo que herda o trono, nosso protagonista, o “verdadeiro” Pantera Negra. O discurso do que é ser um verdadeiro Pantera Negra atravessa o filme buscando legitimar uma linha política para o movimento negro americano.
O personagem enfrenta, ainda antes do surgimento e confronto com o primo, um conflito interno entre posições ligadas ao intervencionismo de Wakanda sobre os demais países e a luta aberta pela libertação do povo negro. Diante dessa bandeira o Rei responde com a posição de respeitar a autodeterminação dos povos e não exposição da tecnologia de Wakanda ao mundo, mantendo uma política pacifista de auxílio indireto través dos "espiões" de Wakanda. A chegada do Primo põe fogo nessa contradição, uma vez que o primo derruba o Rei e impõe a política da tirania e da guerra pelo domínio do mundo, assume a postura de um “falso pantera negra”. Isso lembra muito o cenário totalitário da Segunda Guerra, bem como a chegada de Trump à presidência dos EUA e serve de crítica à direita e defesa da democracia. Nesta vertente, o "falso pantera" é associado ao racismo e ao radicalismo de direita. Mas a defesa da democracia serve ao mesmo tempo à crítica da esquerda, afirmando que toda ditadura é conservadora e negando a via revolucionária que poderia se associar à Malcom X. Tudo isso com um discurso sofisticado, próprio da indústria cultural, mergulhada de ideologia liberal e social-democrática.
Se analisarmos a história e a ideologia assumida pelo primo vingador, poderemos identificar a sua condição de negro da periferia associada ao ressentimento de ter sido abandonado pelo seu povo, seja ele os EUA ou Wakanda. Esse ressentimento fica marcado na sua posição totalitária, se transformando num vilão repugnante e arrogante que quer destruir a todos e só pensa nele mesmo. De fato, exibido dessa forma não há nada que defender nele. Por outro lado, o protagonista é um sujeito sensato, portador de uma segurança e de uma posição e formação aristocrática. Ele assume o verdadeiro espírito dos Panteras Negras, é aconselhado pelos ancestrais Panteras e luta para recuperar o trono. O enredo caminha para o fim com a avaliação de que “foi um erro virar as costas para o mundo”, lembrando ao mundo capitalista que seus moleques abandonados estarão prontos para derrubar seus líderes diante de tanta injustiça. Por fim, a batalha final é feita com o apoio das mulheres guerreiras, fieis ao Rei original, juntamente com a tribo dos Jabari, avessos à tecnologia, contra a tribo da fronteira e o primo norte-americano.
O desfecho não poderia ser mais decepcionante, com a implementação de um Centro de Auxílio Internacional de Wakanda em Oakland, nos EUA, liderado pela irmã rebelde e pelo amor do Rei, duas mulheres de fibra. Essas mulheres, que estavam sendo construídas para quebrar o estereótipo terminam na figura de assistencialistas e cuidadoras dos irmãos negros dos EUA. E com um discurso do Rei na ONU dizendo que “o mundo deve ser uma só tribo” e que os “sábios constroem pontes enquanto os tolos constroem barreiras”. Assim, temos mais uma obra da indústria cultural, que nos seduz com toda sua sofisticação e ao mesmo tempo nos convence de que o capitalismo é a única maneira de viver, reforça a luta pela igualdade racial nos limites da propriedade privada, concentrada ancestralmente, e da autodeterminação dos povos independente de suas políticas. Viva a liberdade, dentro dos limites da burguesia! O a igualdade racial, assim como toda a igualdade, fica num horizonte distante...

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