[micro ensaio] Sobre a fusão da ciência e da arte

Inspirado no texto de Adorno sobre o ensaio ("Ensaio como forma"), escrevo este texto que penso ser um ensaio, sem a pretensão de alcançar aquilo que um dia será uma nova consciência. Faço isso porque o texto de Adorno, que também me parece um ensaio e uma defesa do estilo ensaístico, indica questões que há algum tempo venho refletindo sobre a ciência e a arte, a consciência e a existência, no limite. Mas sobre a primeira oposição que prometo falar no título e luto para não abandonar, parece necessária ser superada. E o ensaio parece ser, como defende Adorno, uma forma de apresentação que não é nem científica nem artística mas ao mesmo tempo é as duas coisas. Assim, o pensamento não estaria preso à regras pré-estabelecidas e formalidades que matam sua certidão no nascimento, nem à estética sem filiação da arte, ao mesmo tempo que se pretende "supra-científico" e artístico na exposição, cativante e pretensiosamente simples mas profundo e assertivo, herege e provocativo, superando limites. 
Sem nenhum dado, sem nenhuma preocupação com o erro, exposto à desconfiança do leitor com a extravagância de um pensamento lógico mas aparentemente especulativo e desleixado, o ensaio defende coisas como o fim da ciência e da arte através de uma nova consciência. Obviamente que este ensaio não o faria sem reconhecer a necessidade de mudar a forma de organizar o trabalho, de abolir a propriedade privada e o Estado, todas essas instituições que sustentam e dependem da linguagem escrita, do pensamento formal, da ideologia, e, portanto, da ciência como ideologia e da arte como sublimação do sofrimento. A nova consciência, a nova expressão da linguagem que buscamos só poderá vir de novas relações, que por sua vez só poderão ser construídas com uma nova linguagem, uma nova consciência, com a dialética do ensaio, da experiência, viva e não como apresentação formal da dialética, sua aparência revolucionária que não sobrevive ao cotidiano. Na vida, a apresentação é o próprio ensaio, se quiser congelar a organização ou a teoria, seu sujeito revolucionário não te aplaudirá mas te receberá nos bastidores e te consolará pela derrota e pela ingenuidade. Mais uma vez o título de meu texto é apenas um subterfúgio para dizer o indizível. Meio crítica, meio despropositado, meio direto, improvisado, quase artístico, cutucando a verdade, simples assim...

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